**Análise Marxista de *O Advogado do Diabo* (The Devil's Advocate)**
**1. O Sistema Jurídico como Instrumento da Classe Dominante:**
O filme retrata o sistema jurídico como uma ferramenta de manutenção da hegemonia burguesa. Kevin Lomax, um advogado ambicioso, defende clientes culpados (como um professor pedófilo) usando brechas legais e manipulação retórica. Isso reflete a crítica marxista de que o direito não é neutro, mas sim uma superestrutura que serve aos interesses da classe dominante, perpetuando desigualdades. A justiça, neste contexto, é mercantilizada: quem tem recursos financeiros (como os ricos clientes de Milton) pode comprar impunidade, enquanto as vítimas (como as crianças abusadas) são silenciadas.
**2. Individualismo e Alienamento:**
Kevin Lomax personifica o **indivíduo atomizado** do capitalismo tardio. Sua obsessão por sucesso profissional, status e riqueza o aliena de relações autênticas (como seu casamento com Mary Ann) e de sua própria humanidade. Sua ascensão na firma de John Milton (o Diabo) simboliza a **falsa mobilidade social** prometida pelo capitalismo: mesmo alcançando riqueza, ele se torna um "funcionário do inferno", alienado de seus valores e de sua classe social original. O filme critica a ideologia meritocrática, mostrando que o sucesso no sistema capitalista exige a corrupção moral.
**3. O Diabo como Metáfora do Capitalismo:**
John Milton (nomeado em referência ao autor do poema épico *Paraíso Perdido*) encarna o capitalismo em sua forma mais predatória. Ele explora as fraquezas humanas (ambição, luxúria, vaidade) para expandir seu poder, assim como o capitalismo se alimenta do desejo infinito de consumo. Sua firma é uma corporação global que sequestra a justiça, transformando-a em mercadoria. A frase *"Vanity, definitely my favorite sin"* ("Vaidade, definitivamente meu pecado favorito") sintetiza a crítica à sociedade do espetáculo e ao fetichismo das mercadorias, onde a aparência e o status substituem a substância.
**4. Gênero e Exploração:**
As personagens femininas, como Mary Ann (a esposa de Kevin) e as vítimas do professor pedófilo, representam a **dupla exploração** de gênero e classe. Mary Ann, inicialmente uma mulher independente, é reduzida a um objeto de controle e violência psicológica, refletindo a opressão patriarcal dentro do sistema capitalista. Já as vítimas do professor são silenciadas pelo poder econômico e jurídico do acusado, evidenciando como o capitalismo protege os privilegiados mesmo diante de crimes hediondos.
**5. Religião e Falsa Consciência:**
O uso da religião pelo Diabo (como a citação bíblica *"Não julgueis para não serdes julgados"*) satiriza a **falsa consciência** propagada pelas instituições ideológicas. Kevin inicialmente acredita estar "do lado certo" ao defender clientes, mas sua cegueira ideológica o leva a colaborar com o mal estrutural. A crítica aqui é à hipocrisia da moral burguesa, que mascara a exploração com discursos de liberdade e justiça.
**6. A Crise do Sujeito e a Revolução Impossível:**
A transformação de Kevin em um "advogado do diabo" ilustra a **crise do sujeito** no capitalismo: sua identidade é fragmentada entre o profissional bem-sucedido e o ser humano moralmente vazio. Sua tentativa de redenção (ao matar Milton/Hitler) é ambígua: embora ele rejeite o sistema, o filme sugere que o Diabo é imortal e sempre se reinventa (como no final, quando ele renasce em outro corpo). Isso reflete a crítica marxista de que a luta contra o capitalismo não pode ser individual, mas sim coletiva e estrutural.
**7. A Crítica à Cultura do Sucesso:**
O filme expõe a **cultura do sucesso a qualquer custo** como um mecanismo de dominação. A Nova York dos anos 1990, com seus excessos financeiros e consumistas, é apresentada como um inferno moderno, onde a ética protestante do trabalho se corrompe em ambição desenfreada. Kevin, ao seguir esse modelo, torna-se um "funcionário do inferno", mostrando que a internalização dos valores capitalistas leva à autodestruição.
**Conclusão:**
*O Advogado do Diabo* é uma alegoria marxista do capitalismo em sua fase mais parasitária. O filme desnuda as contradições de um sistema que corrompe a justiça, a moral e as relações humanas em nome do lucro e do poder. No entanto, sua resolução individualista (a redenção de Kevin através do suicídio e do autoconhecimento) revela uma limitação: a mudança real exigiria a destruição do sistema, não apenas a resistência individual. Assim, o filme oscila entre uma crítica radical à ordem burguesa e uma visão pessimista de que o capitalismo é um demônio imortal — uma metáfora da dificuldade histórica de superar as estruturas de classe.