É claro que eu não acredito em nada do que a Polícia Federal, sob o comando de Alexandre de Moraes, diz.

A questão é que eu não posso deixar de saber das coisas que eu sei. Eu sei que um delegado chegou a uma conclusão em um inquérito que interessava a Alexandre de Moraes. O AM não gostou da conclusão, fez declarações à imprensa, a PGR mandou reabrir as investigações, a PF trocou o delegado, o novo delegado alterou o resultado do inquérito e, em seguida, ganhou um cargo na Europa. Tudo que vem dessa origem é, para mim, lido sob a luz dessa informação. O estranho é acharem absurdo eu levar isso em consideração. É quase como se não houvesse motivo algum para desconfiar da versão repetida pela GloboNews. É quase como se não houvesse razão para estranhar a reunião reportada pela Folha de S.Paulo dias antes de a operação ser deflagrada — com prisões preventivas por fatos que ocorreram há anos, sem continuidade no presente (e como sempre, nessas horas, os Garantistas da Odebrecht imitam o Mestre dos Magos) —reunindo Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, o Procurador Geral da República, o comandante da PF e Lula. Isso sem mencionar que assessores de Moraes já foram pegos cobrando uns dos outros o uso de “criatividade”.

É óbvio que uma enorme parcela do bolsonarismo não acredita que Alexandre de Moraes conduziu as eleições de forma imparcial. É óbvio que essa parcela acredita que o STF declarar inconstitucional o voto impresso, depois de ser aprovado no Congresso e sancionado pelo presidente, e Barroso fazer lobby contra a PEC do Voto Impresso são evidências claras de que a alta cúpula do Judiciário tinha um lado e ele era oposto ao de Bolsonaro (você pode achar absurda a ideia de que as pessoas fiquem desconfiadas por causa de tamanho empenho em impedir a inclusão de um sistema adicional de checagem, mas é o que é). É óbvio que essa parcela acredita que coisas como proibir falar da amizade entre Lula e Daniel Ortega ou citar os escândalos de corrupção verdadeiros do governo Lula desequilibraram a eleição. Eu poderia passar o dia listando o rosário de intervenções que o bolsonarismo acredita ter sofrido. É óbvio que Bolsonaro consultou os seus chefes militares para saber se concordavam com a interpretação do Art. 142 da Constituição dada por Ives Gandra Martins (por curiosidade, existe uma PEC no Congresso que encerraria de uma vez por todas qualquer polêmica sobre a interpretação desse artigo; por sugestão do ministro da Defesa, o governo Lula desistiu de aprovar a proposta). É fato que o então Comandante do Exército em 2016 afirma ter sido consultado por políticos de esquerda como a decretação de um Estado de Defesa séria recebido pelas Forças.

Também é fato que Joe Biden enviou emissários do Departamento de Estado, da CIA e das Forças Armadas para o Brasil a fim de avisar suas contrapartes de que qualquer disrupção no processo eleitoral seria tratada (publicado na Reuters com a manchete “EXCLUSIVE: CIA chief told Bolsonaro government not to mess with Brazil election, sources say” e na Foreign Policy como “How U.S. Pressure Helped Save Brazil’s Democracy”). Também é fato que os inquéritos intermináveis de AM não impediram nada; pelo contrário, insuflaram ainda mais o bolsonarismo, que muito provavelmente só não teve o apoio dos militares por pressão de Biden. Por fim, também é fato que Bolsonaro indicou os comandantes militares escolhidos por Lula durante a transição.

Você pode chegar à conclusão que quiser, mas esses são os fatos.

A minha conclusão é que ter vários pés atrás com o que é vazado para a GloboNews é plenamente justificável. E é a única postura possível enquanto Alexandre de Moraes estiver à frente das investigações (das quais ele também é a suposta vítima).

A propósito, não precisa confiar em mim, pesquise tudo que eu falei aqui. Quanto mais você estiver informado, melhor.

- Via Ivanildo Terceiro

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Discussion

Está uma zorra. Ninguém espera mais nada de bom vindo de qualquer instituição brasileira seja ela estatal ou pública. Quando não há credibilidade em nada as pessoas perde o porto seguro e disso pode surgir lances imprevisíveis. Todo dia esperamos mais uma atrocidade do STF, governo federal e todos os aparatos estatais que ultimamente colocaram medo até nos advogados mesmo que estes tenham a esperança da salva guarda da OAB. Triste toda essa situação mencionado no texto. Vivemos em uma autocracia covarde e com vários rostos.