Reflexão Contemporânea Sobre a Guerra dos Blocos

A Guerra dos Blocos foi o evento divisor de águas na história do Bitcoin. Foi por conta desse fato que a filosofia e modus operandi do Bitcoin está bem estabelecida como hoje está.

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Quando falamos de Guerra dos Blocos, a primeira coisa que os indivíduos pensam, indiferentemente se eles são novos ou antigos na comunidade bitcoiner, é no protocolo alternativo ao Bitcoin que surgiu através de um hard-fork chamado Bitcoin Cash. Talvez haja também a impressão que, durante a Guerra dos Blocos, Bitcoin e Bitcoin Cash “guerreavam” para ver quem ficava com o título de Bitcoin original, ou qual estaria mais alinhado à visão de Satoshi Nakamoto. Em partes, esse raciocínio é verdade. Em outras partes, ele está no erro. Vamos, nesse artigo, destrinchar a verdade do que foi esse tão grande importante evento na história do protocolo Bitcoin.

Consequências da Guerra dos Blocos

Sempre que falamos em guerra, começamos falando do estopim. Mas nesse caso vou começar falando do fim, apenas com o fim de desmentir um dos mitos mais comuns sobre a Guerra dos Blocos. A Guerra dos Blocos não foi um evento de guerra de protocolos. Não haviam duas moedas: Bitcoin e Bitcoin Cash. Na realidade, o surgimento do Bitcoin Cash marca justamente o fim da Guerra dos Blocos. Talvez o nome “Guerra dos Blocos” nos faz alusão que era a cadeia de blocos do Bitcoin versus a cadeia de bloco do Bitcoin Cash. Na realidade, até em inglês esse nome está errado: “The Blocksize War” - “Guerra do Tamanho do Bloco”. Apesar de um pouco mais correto, ainda não é muito assertivo. O nome certo para definir essa guerra seria: “Guerra do Tamanho do Limite do Bloco”.

Também há pessoas que falam que a Guerra dos Blocos foi um evento ambíguo: desenvolvedores contra mineradores. Na realidade, haviam os dois em ambos os lados.

Já que definimos o que foi exatamente a Guerra dos Blocos, podemos falar sobre consequências. Temos uma consequência tangível, ou, pelo menos, verificável, e outra filosófica ou de entendimento.

A consequência tangível é claramente o surgimento do protocolo Bitcoin Cash, o qual já falei sobre seus pontos negativos nesse artigo: https://waltervictor21.substack.com/p/por-que-shitcoins-nao-funcionam

Se o protocolo ainda vive, isto é, se ainda tem blocos sendo produzidos e transações sendo confirmadas, isso nos indica que ainda há uma comunidade. A comunidade do Bitcoin Cash tem uma filosofia que surgiu originalmente no Bitcoin chamado big blocker. Os big blockers acreditavam que o tamanho do limite do bloco do Bitcoin deveria ser grande. O quão grande? Há discussões, mas na época eram 8 MB (de 1 MB para 8 MB), depois 32 MB, agora não existe mais limite ao certo (blocos dinâmicos).

A outra consequência que podemos citar é no caráter filosófico da comunidade bitcoiner: Agora, a importância de rodar seus próprios nodes estava mais que salientada. Era extremamente importante isso porque, segundo eles, era isso que impediu um hard-fork de acontecer no Bitcoin (chamado SegWit 2x).

Argumento que levou à Revolução Cultural

Como tem os big blockers, é óbvio que haviam também os small blockers. Eles, por contrário dos big blockers, acreditavam que o tamanho do bloco deveria se manter em 1 MB ou, até mesmo abaixar esse limite, em prol da descentralização da rede.

O maior argumento contra a filosofia big blocker, por parte dos small blockers, é que, se os blocos fossem de fato grandes, ao longo do tempo seria necessário mais espaço de armazenamento rígido para rodar um node, levando à necessária confiança em nodes de terceiros e, consequentemente, perda de descentralização e segurança.

Isso levou a rede do Bitcoin à uma Revolução Cultural. Como diz o livro “The Blocksize War: The Battle for Control Over Bitcoin’s Protocol Rules” de Jonathan Bier, os big blockers estavam mais preocupados com Bitcoin se tornando um meio de pagamento do que um sistema antifrágil descentralizado, enquanto essa era justamente a preocupação dos small blockers. Segundo o livro, os small blockers viram no Bitcoin a oportunidade de fazer o protocolo mais resiliente, resistente e assíduo do mundo todo. E não seria por causa de taxas eventualmente altas que eles abririam mão disso.

Contextualizando a Guerra dos Blocos

A Guerra dos Blocos começou em 15 de Agosto de 2015, quando Mike Hearn adotou a BIP 101 em seu cliente (algo semelhante ao Core) do Bitcoin (Bitcoin XT). Essa BIP planejava aumentar o limite do tamanho dos blocos do Bitcoin, fazendo caber mais transações por bloco.

Gavin Andresen é outra personalidade importantíssima para falar sobre o estopim da Guerra dos Blocos. Gavin foi o desenvolvedor “escolhido” por Satoshi Nakamoto, após sua saída. Em sua carta final, Satoshi literalmente menciona esse desenvolvedor, e por isso fica verossímil que ele ganhou muito respeito na comunidade. Esse desenvolvedor também apoiava blocos grandes e o cliente de Mike Hearn.

Outro evento marcante para o início da Guerra dos Blocos foi o apoio da Coinbase para com a BIP 101 e o cliente alternativo.

Adentrando a Guerra dos Blocos

Existe um livro longo sobre tudo isso, estou apenas resumindo. No entanto, é também importante falar que a comunidade em um certo ponto se dividiu. No Reddit, big blockers foram banidos do r/bitcoin (acusados de divulgar cliente alternativo perigoso - big blockers acusaram de censura) - daí a fundação do subreddit r/btc. Essa divisão foi importante para o sentimento de separação das duas comunidades, o que eventualmente causaria um fork. Uma comunidade que até então era única: bitcoiners, foram divididos entre dois termos técnicos: os big blockers e os small blockers.

Ainda que havia esse sentimento separatista na comunidade, eles pensavam que não era realista simplesmente “forkar” e continuavam amplamente participando de debates e discussões, ambos os lados, principalmente em conferências como Scaling Bitcoin.

A loja de aplicativos Steam há pouco havia começado a aceitar Bitcoin como meio de pagamento e, por causa de taxas no Bitcoin que começavam a se ampliar, voltou atrás com a ideia. Esse foi um dos argumentos dos big blockers: O Bitcoin estava perdendo mercado por não saber se ajustar às necessidades do mesmo.

Roger Ver e Jihan Wu

Essas foram as personalidades mais importantes nessa guerra. Foram as que mais fizeram barulho. Roger Ver, denominado na época como “Bitcoin Jesus” - hoje é “Bitcoin Judas” - foi um dos primeiros grandes entusiastas e empresários a empreender com Bitcoin. Quando ele conheceu o projeto ficou até mesmo três noites inteiras sem dormir, de tanta ansiedade e empolgação. Ver era um big blocker desde o princípio.

Jihan Wu é o dono ou criador da Bitmain, empresa de ASICs que fazem a mineração do Bitcoin existir. Jihan Wu alternou diversas vezes entre ambos os lados, e ele era a personalidade mais influente da época porque os mineradores chineses confiavam cegamente nele.

Ambos foram os responsáveis por forkar a rede do Bitcoin no segundo semestre de 2017.

Adam Back, Nick Szabo, Peter Todd e Luke Dashjr

Adam Back, Nick Szabo, Peter Todd e Luke Dashjr foram as mais importantes celebridades dos small blockers. Luke Dashjr se destaca por ter ajudado a criar a solução SegWit, que era uma solução que os small blockers acreditavam que poderia ajudar a escalar a rede sem a mesma perder consenso nem descentralização.

O medo de Fork

Apesar da comunidade ter se separado, ainda havia muito medo de ambas as partes de caso o Bitcoin “se dividir”. Esse medo foi ainda mais ampliado quando houve o fork na rede Ethereum, causando a criação do Ethereum Classic.

O Fork

O hard-fork aconteceu em 2017 com o lançamento do cliente e nó Bitcoin ABC. Ironicamente, se você rodar esse cliente hoje em dia, não rodará mais Bitcoin Cash e sim outra shitcoin que fizeram hard-fork chamada (eCash). Além disso, também houve outro hard-fork entre os big blockers: os big blockers “moderados” (Bcashers) e os big blockers “radicais” (Bitcoin SV). Todos esses forks desanimaram várias pessoas que se viram perdidas em meio a tantos projetos, mineradores também, que voltaram seu poder de hashrate somente para o Bitcoin, invés de forks inseguros.

O Bitcoin ABC inicialmente adotou blocos de 8 MB enquanto o Bitcoin adotou o SegWit, medida que nos levaria à inovações como a Lightning.

Os Usuários Comuns Manteram o Status Quo

Dentre as duas alternativas de mudanças: o aumento do tamanho do limite do bloco e o SegWit, surgiu uma alternativa que segue a dialética Hegeliana: um pouco de ambos. O SegWit2x queria aplicar o SegWit e aumentar o tamanho do bloco. Essa mudança por um bom tempo foi impulsionada pelo Roger Ver e quase que mineradores ativaram-na, mas desistiram de última hora vendo que não havia suporte para isso nos nós. Ou seja: os usuários comuns que se recusaram a atualizar o protocolo literalmente impediram o Bitcoin de mudar ou se tornar mais centralizado.

Análise Final sobre Ambas Filosofias

A Guerra dos Blocos foi necessária para ambos lados definirem bem suas filosofias. Os small blockers se importam mais com descentralização, resiliência e segurança enquanto os big blockers que importam mais com velocidade, baixos custos e comércio. Hoje em dia está evidente que o mercado fez sua escolha ao escolher o Bitcoin. Enquanto Bitcoin Cash se mantém vivo nos aparelhos que sua comunidade gerencia.

Também, sem dúvidas, a filosofia dos small blockers é mais difícil de compreender. Para você a entender com totalidade, você precisa compreender o que é SegWit e o conceito de segunda camadas. Enquanto os big blockers só pedem o ajuste de uma única linha de código.

Reflexão Final

A Guerra dos Blocos foi extremamente importante para separar as duas comunidades filosóficas que existe no Bitcoin: os que acreditavam na descentralização, resiliência e segurança acima de tudo (mesmo que resultasse em altas taxas) e os que acreditavam em rapidez e baixos custos acima de tudo (mesmo que resultasse em centralização). O mercado escolheu o protocolo mais descentralizado.

Algo que não mencionei propositalmente e que, mencionando agora tenho certeza que ficarás surpreso é que os small blockers eram a minoria na mídia. As corretoras, mineradores e influencers todos impulsionavam a ideia dos big blocks. Através de usuários comuns rodando seu próprio node, não abrindo mão de sua descentralização e soberania, que vimos que o desfecho dessa história é emocionante:

Os donos do Bitcoin são os usuários, não empresas, influencers ou corretoras.

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