“Cada experiência comunista é recomeçada na inocência.” (Alain Besançon, A Infelicidade do Século)
O apoio declarado de Luiz Inácio Lula da Silva à farsa eleitoral na Venezuela chavista – apoio que incluiu um deboche cafajeste dirigido à opositora María Corina Machado – causa um grande embaraço às Organizações Globo, que carregaram o lulopetismo no colo de volta ao poder. Isso porque a proximidade entre Lula e Nicolás Maduro lança luz sobre o nosso próprio teatro da democracia, similar em muitos aspectos ao venezuelano, e que teve nos estúdios e redações globais o seu produtor de maior destaque. Que Lula esteja se empenhando tanto em falsificar a imagem de Maduro e apresentá-lo como um democrata não deveria escandalizar um grupo de mídia que tem feito exatamente o mesmo com o mandatário brasileiro. Portanto, o escândalo recém-ostentado pelo jornalismo da Globo parece ser insincero e calculado.
A afetação de escândalo foi ilustrada, por exemplo, por um comentário muito indignado de Merval Pereira no programa Estúdio I, da Globo News. “É um acinte. Todo mundo sabe que a eleição [na Venezuela] não tem legitimidade, não tem candidato de oposição” – vociferou Merval. “Não é possível que o Lula não saiba. Evidente que ele sabe, que a eleição já de largada não é correta, não é legítima. Ele não pode fazer esse comentário.”
De fato, é óbvio que Lula sabe da inexistência de oposição na Venezuela. Mas também é óbvio que Merval Pereira sabe que Lula não é um democrata, e que o seu apoio à ditadura venezuelana é antigo, sólido e inquebrantável. Quando, portanto, o jornalista diz em tom imperativo que o mandatário brasileiro não pode fazer esse comentário, certamente não é a surpresa que o motiva. Merval não é inocente. Portanto, falando em nome do empregador, seu objetivo parece ser o de recordar a aliança firmada entre a Globo e o lulopetismo ao longo da corrida eleitoral de 2022, e cobrar de Lula o compromisso de ao menos fingir ser um democrata. Afinal, a “defesa da democracia” contra o “fascismo” bolsonarista foi o mito fundador dessa aliança, a única justificativa para o abandono de qualquer resquício de ética jornalística por parte do grupo midiático em função do objetivo político comum. Uma vez comprometida essa peça de ficção, tudo o mais tende a derreter como cera ao sol.
Flávio Gordon