**Análise Marxista do Genocídio em Ruanda: Colonialismo, Classe e Violência Estrutural**
O genocídio de Ruanda (1994), que resultou no assassinato de aproximadamente 800 mil pessoas (majoritariamente Tutsis e Hutus moderados), não pode ser reduzido a um "conflito étnico" isolado. Sob uma perspectiva marxista, ele é produto de **contradições históricas do capitalismo colonial e neocolonial**, que instrumentalizaram divisões étnicas para garantir o controle de classes dominantes locais e internacionais. Abordaremos as raízes coloniais, a função do Estado como instrumento de classe e a cumplicidade do imperialismo.
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### **1. Colonialismo e a Criação de Divisões Étnicas**
#### **a) Engenharia colonial belga:**
- **Divide et impera**: A Bélgica, durante o domínio colonial (1895-1962), reforçou hierarquias étnicas pré-existentes para fragmentar a população. Os Tutsis (pastores) foram privilegiados como "raça superior", enquanto os Hutus (agricultores) foram subordinados. A emissão de **cartões de identidade étnicos** (1933) cristalizou diferenças artificiais, criando um sistema de castas.
- **Acumulação primitiva**: A expropriação de terras e recursos concentrou riqueza nas mãos de uma minoria Tutsi aliada aos colonizadores, gerando ressentimento entre os Hutus.
#### **b) Independência e reversão de poder:**
- Após a independência (1962), os Hutus, majoritários, tomaram o poder, invertendo a discriminação. A elite Hutu usou o **discurso anti-Tutsi** para desviar a luta de classes, culpando os Tutsis pela miséria geral. A estrutura colonial de desigualdade permaneceu, agora sob domínio Hutu.
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### **2. Classe, Estado e a Função do Genocídio**
#### **a) Burguesia Hutu e acumulação por despossessão:**
- A elite Hutu manteve-se no poder através de **clientelismo** e controle de recursos (ex.: café, principal exportação). A crise econômica dos anos 1980 (queda do preço do café) aprofundou a pobreza, levando a elite a usar o **genocídio como válvula de escape**: ao direcionar a violência contra os Tutsis, desviou a ira popular da exploração capitalista.
- **Mídia como arma ideológica**: Rádios como *RTLM* incitavam o ódio, comparando Tutsis a "baratas", normalizando a violência de massa.
#### **b) O papel do Estado genocida:**
- O governo Hutu (FAR) organizou milícias *Interahamwe* e usou o exército para executar o genocídio. A violência não foi espontânea, mas **planejada para eliminar ameaças à hegemonia burguesa Hutu**, incluindo intelectuais e oposicionistas.
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### **3. Imperialismo e Cumplicidade Internacional**
#### **a) França: apoio ao genocídio:**
- A França, em nome da *Françafrique* (política neocolonial), armou e treinou o regime Hutu, mesmo após o início do genocídio. Seu objetivo era manter influência na região dos Grandes Lagos, rica em recursos (cassiterita, coltan).
- **Silêncio internacional**: EUA e ONU evitaram intervenção, temendo custos políticos. A priorização de interesses geopolíticos sobre vidas humanas reflete a **lógica capitalista do "direito de ingerir apenas quando lucrativo"**.
#### **b) Conflitos regionais e acumulação capitalista:**
- O genocídio ocorreu em contexto de guerra civil (1990-1994), com o *Rwandese Patriotic Front* (RPF, Tutsi) invadindo desde Uganda. A violência serviu para **desestabilizar a região**, facilitando o saque de recursos por multinacionais (ex.: mineração ilegal de coltan no Congo, pós-genocídio).
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### **4. Interseccionalidade: Raça, Classe e Gênero**
#### **a) Violência sexual como arma de guerra:**
- Estima-se que 250-500 mil mulheres foram estupradas durante o genocídio. A violação sistemática visava **destruir a coesão social Tutsi** e perpetuar a dominação patriarcal.
- **Mulheres como alvo de classe**: A elite Hutu associou Tutsis a "aristocratas" (embora muitos fossem pobres), usando o estupro para reafirmar hierarquias raciais e de gênero.
#### **b) Juventude despossuída:**
- Milicianos *Interahamwe* eram jovens Hutus marginalizados, recrutados com promessas de terra e poder. Sua violência reflete a **alienação gerada pelo desemprego e falta de perspectivas** no capitalismo periférico.
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### **5. Pós-Genocídio: Continuidade do Capitalismo Autoritário**
#### **a) RPF e neoliberalismo seletivo:**
- O RPF, liderado por Paul Kagame, tomou o poder em 1994, mas manteve estruturas capitalistas. Seu regime, embora tenha reduzido a pobreza, é **autoritário** e reprime dissidências, usando o trauma do genocídio para criminalizar críticas.
- **Acumulação por deslocamento**: O RPF promoveu privatizações e agronegócio, expulsando camponeses para dar lugar a plantações de chá e café, reproduzindo desigualdades.
#### **b) Conflito no Congo e neocolonialismo:**
- O genocídio desencadeou a Primeira Guerra do Congo (1996-1997), com Ruanda invadindo o país para perseguir Hutus extremistas. O conflito, porém, serviu para **pilhar recursos** (ex.: minerais usados em eletrônicos), com empresas ocidentais lucrando.
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### **Conclusão: Genocídio como Produto do Sistema**
O genocídio em Ruanda foi uma **crise estrutural do capitalismo**, que usou o etnicismo para esconder contradições de classe. A Bélgica criou as divisões, a França as alimentou, e a elite Hutu as instrumentalizou para manter o poder. Enquanto o capitalismo existir, genocídios como o de Ruanda continuarão a ocorrer, pois são inerentes a um sistema que transforma vidas em **meros obstáculos à acumulação**. Como disse **Frantz Fanon**:
> *"O colonizado é um ser perseguido, pois seu destino é ser perseguido"*.
A solução está na **unidade da classe trabalhadora** além das divisões étnicas, combatendo tanto o imperialismo quanto as elites locais que o servem.