Tem-se procurado saber donde vem e aonde vai este universo;

e tem-se respondido que vem da liberdade, sujeita-se à fatalidade e volta de novo à liberdade. Assim, quando dizemos que o homem não é mais que o ser infinito se manifestando, queremos dizer que só uma parte muito pequena dele é em realidade o homem; este corpo e esta mente que percebemos são apenas uma parte do todo, apenas um ponto da existência infinita. O universo é somente uma partícula da infinita existência, e todas nossas leis e limitações, nossas alegrias, nossas felicidades e nossas esperanças, estão dentro dele; todo nosso progresso e nossa decadência se acham nos limites de sua pequena jurisdição. De maneira que vedes quão infantil é esperar uma continuação deste universo (criação de nossa mentes) e aguardar o céu que, depois de tudo, só pode ser uma repetição deste mundo que conhecemos. Como vedes, é um desejo impossível e infantil adaptar a totalidade da existência infinita a esta existência limitada e condicionada que conhecemos.

Quando um homem afirma que terá sempre a mesma coisa que agora possui, ou, como tenho dito algumas vezes, quando ele pede uma religião confortável, podeis estar seguro de que se degenerou tanto que já não é capaz de pensar em algo mais elevado do que o é atualmente.

Este homem é tão só o que são suas mesquinhas circunstâncias atuais. Esqueceu sua natureza infinita, e seu pensamento se circunscreve às pequenas alegrias, tristezas e aborrecimentos do momento. Pensa que esta coisa finita é o infinito; e não

somente isto, mas não quer abandonar tão ridícula idéia. Aferra-se desesperadamente a trishná, a sêde de viver, que os budistas chamam tanha e trissá. Podem existir milhões de classes de felicidades, de seres, de leis, de progresso e de causação atuando fora deste pequeno universo que conhecemos, pois a totalidade de tudo isto compreende apenas uma seção de nossa natureza.

Para alcançar a liberdade, devemos transcender os limites do nosso universo. O perfeito equilíbrio, ou o que os cristãos chamam a paz, que se encontra além de todo entendimento, não pode ser conquistado neste mundo, nem no céu nem em lugar algum onde nossa mente possa pensar, os sentidos perceber e a imaginação conceber. Nenhum destes lugares pode nos dar a liberdade, porque todos eles estariam dentro de nosso universo e este está limitado pelo tempo, espaço e causação. Podem existir lugares que sejam mais etéreos do que nossa terra, onde os prazeres sejam mais intensos, porém mesmo esses lugares estarão dentro de nosso universo, e portanto, sujeitos à lei; por conseguinte, devemos ir mais além, e a verdadeira religião começa onde termina o nosso universo. As rápidas alegrias e sofrimentos findam onde a realidade começa. Enquanto não abandonarmos a sêde de viver, a atração pela existência transitória e condicionada, não teremos nem sequer a esperança de vislumbrar essa infinita liberdade que existe além do limitado.

É lógico que não existe mais do que uma só maneira de obter esta liberdade (uma das mais nobres aspirações da humanidade) : o desprezo desta pequena vida, deste pequeno universo, desta terra, do céu, do corpo, da mente e de tudo o que está limitado e condicionado. Se renunciarmos o nosso apego por este pequeno universo dos sentidos e da mente, seremos imediatamente livres. É o único modo de se livrar dos laços e ir além das limitações da lei e da causação.

Todavia, é, sumamente difícil deixarmos de nos aferrar a este universo; muito poucos o conseguem. Nossos livros mencionam um dos modos de obtê-lo. Um é chamado nei, neti (isto não, isto não), e o outro se chama iti (isto); o primeiro é negativo e o segundo positivo. A maneira negativa é a mais difícil e só possível para homens de mentes elevadas e poderosa vontade; desses que se põem de pé e dizem: "Não, não aceito isto", e a mente e o corpo obedecem sua vontade, e surgem vencedores da prova. A maioria da humanidade escolhe o modo positivo, o caminho do mundo, usando de todas as limitações para romper essas mesmas limitações. Esta é também uma maneira de renunciar; só que age de maneira lenta e gradual, conhecendo as coisas, gozando delas e obtendo. desta maneira. experiência, conhecendo a natureza das coisas até que a mente termina por abandoná-las.

O primeiro modo de se desligar é mediante o raciocínio; o segundo, pela experiência. O primeiro é a senda da jnana-yoga e se caracteriza pela negativa de realizar qualquer obra; o segundo é, a karma-yoqa, aquela que age sem cessar. Todos devem trabalhar no universo. Só aqueles que estão satisfeitos com o Ser, cujas mentes nunca saem fora do Ser, para quem o Sor é tudo em todos, não trabalham. Os demais devem trabalhar.

do livro

karma Yoga, capitulo 7 : Liberdade

de Swami Vivekananda

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