https://www.youtube.com/watch?v=pQ7fjpqzUS4
Uma excelente entrevista de Natalie Brunell a Michael Saylor, aconselho a sua visualização.
Sem dúvida alguma, Saylor é muito inteligente, mas algo que sempre me inquietou ou gerou muitas dúvidas, é o seu ponto de vista sobre o Bitcoin como meio de troca(MoE). O seu pensamento (como MoE) sempre foi muito abstrato, evitava falar do assunto, era quase um tabu. Eu acreditava que essa atitude era devido a ter receio das autoridades dos EUA.
Mas nesta entrevista, ele falou mais do assunto, defendendo um mundo onde o Bitcoin como uma reserva de valor(SoV) e o dólar como a MoE, uma moeda global. Ou seja, o pensamento geral dos milionários de Wall Street, que só vê EUA, não tem a mínima noção da realidade ao seu redor, de como vivem os mais pobres em todo o mundo. Quando viajam, só vão para hotéis de 5 estrelas ou para condomínios de luxo ou fechados, não conhecem a realidade.
Não faz qualquer sentido, o dólar ser uma moeda oficial de todos os países, utilizada por todas as pessoas do mundo. Certamente algumas beneficiaram, mas no geral não haveria benefícios, a não ser para o EUA, que poderia financiar-se inesgotável e exportar diretamente inflação para todos os países. Se hoje em dia, o dólar como moeda de reserva mundial, indiretamente consegue exportar inflação, como MoE global, seria bem pior. Era o mundo inteiro a financiar um único governo, um único país. Os países do mundo e os seus cidadãos ficariam escravos, dependente das opiniões e da atitude do governo dos EUA. Seria um Franco CFA global.
É claro que o mundo beneficiaria com a existência de uma MoE global, mas este tem que ser neutro politicamente e economicamente, ter inflação zero é fulcral.
Saylor nunca escondeu que só olha para o Bitcoin como uma SoV, descartando o MoE e a auto-custódia.
Eu tenho opinião contrária, a meu ver, o que é revolucionário no bitcoin é o MoE, permitir a qualquer indivíduo do mundo ser livre, ter acesso a uma conta bancária, ter um dinheiro que não é monitorizado ou controlado por um governo. Permitir aos mais podres, que a sua única riqueza, são meia dúzia de moedas, que permitem apenas comprar a refeição do dia seguinte, não ser roubado pelo seu governo através da desvalorização cambial ou inflação.
É claro que o Bitcoin necessita de ser uma boa SoV, mas ao mesmo tempo também tem que ser uma MoE. Este é o principal problema das moedas FIAT, não são uma boa SoV, foram projectadas para perder poder de compra continuamente. Ter as duas características em simultâneo e ser acessível para todos os cidadãos do planeta, é que é revolucionário.
Na maneira como o Saylor olha para o Bitcoin, no meu ponto de vista, faria mais sentido ele ter apostado no ouro. Ele olha para o Bitcoin, apenas com as mesmas caraterísticas que o ouro, mas Bitcoin vai muito mais além disso. Em todas as características onde o Bitcoin é melhor que o ouro, o Saylor não usa/gosta. A divisibilidade, portabilidade, verificabilidade, fungibilidade, sem contra-parte e a soberania são características especialmente úteis para quem usa o bitcoin como MoE.
As caraterísticas onde (agora) o ouro é melhor que o Bitcoin, como a história e a adoção, sobretudo nos bancos centrais e no mundo financeiro, é apenas isto que o Saylor procura, possivelmente faria muito mais sentido ter apostado no ouro.
Volto a frisar, eu compreendo que o Saylor evite defender publicamente o Bitcoin como MoE, por ter medo de represálias, mas não faz qualquer sentido defender o dólar como moeda global. É completamente legítimo alguém querer apenas o Bitcoin como SoV, não querer utilizá-lo como moeda. Cada um é livre de fazer o que quer da sua vida e do seu património. Mas o Saylor ao dizer que o dólar é melhor que o Bitcoin, como MoE, só demonstra que ele não reconhece o real valor do Bitcoin.
# MicroStrategy
O Saylor, ao mesmo tempo que defende o sistema financeiro FIAT, aproveita-se dele para fazer um ataque especulativo, ao próprio sistema. Aproveita as lacunas, do crédito barato existente, para comprar mais Bitcoin. Na entrevista, reafirma, que a MicroStrategy é um ativo alavancado de Bitcoin.
É curioso como ele o descreve, é alavancado mas sem a chamada de margem.

Pode não ter chamada de margem, mas continua a ser alavancado, continua a existir um risco, as notas conversíveis tem que ser devolvidas. É provável que no fim das maturidades das notas, o Bitcoin valerá mais que hoje, neste caso não existirá grande problema. Apesar de ser pouco provável, pode acontecer o contrário e se isso acontecer, será problemático.
O Saylor não pára de comprar Bitcoin, os créditos são cada vez mais elevados. A MicroStrategy começa a ser um problema. O curioso, é que o mercado está extremamente confiante e continua a comprar as notas conversíveis, na última emissão foram com uma maturidade de 2029 e com taxa de juro de 0%.
Enquanto escrevia este artigo, mais uma emissão:

# Ativos digitais
Outro ponto que gerou alguma controvérsia, é o Sayler defender os RWAs. Alguns _bitcoiners_ criticaram-no e disseram que ele deixou de ser maximalista e os _shitcoiners_ começaram a comemorar.
Neste ponto, eu compreendo o seu ponto de vista e até concordo com o Saylor, o sistema financeiro necessita de se modernizar, de estar disponível 24 por 7. Eu acredito que o futuro do sistema financeiro vai passar pela _blockchain_, mas será algo muito diferente daquilo que os _shitcoiners_ imaginam. Os RWAs não vão ser em Solana ou Ethereum, não haverá _tokens_ nativos ou _tokens_ dos protocolos.
Eu vejo a BlockRock a criar uma _blockchain_ própria, um sistema que fará concorrência direta à bolsa de New York, mas esse ecossistema terá como _tokens_ nativos um sistémico do dólar, uma _stablecoin_. Tudo será monitorizado e controlado pela BlockRock, incluindo as regras de consenso da rede e os validadores, KYC e a emissão dos RWAs.
_Blockchain_ é uma tecnologia que poderá ser muito útil, quando bem utilizada. O grande problema, é que os shitcoiners utilizam a tecnologia apenas para enriquecer, para vender _tokens_ nativos ou _tokens_ de protocolos ou _tokens_ de governança, são _tokens_ por tudo e por nada, isto é que não faz qualquer sentido. E como Saylor voltou a frisar: “_There is no second best_”.