**Abraham Lincoln: Uma Análise Marxista Completa**

A análise marxista do legado de Abraham Lincoln (1861–1865) requer situá-lo no contexto das **contradições entre o capitalismo industrial do Norte e a escravidão colonial do Sul** nos Estados Unidos. Sua presidência, marcada pela Guerra Civil (1861–1865) e pela abolição da escravidão, representa um momento de **transição entre o capitalismo comercial escravista e o capitalismo industrial burguês**. Lincoln, como figura histórica, personifica a luta de classes em escala nacional e a consolidação de um Estado burguês que, embora progressista em relação à escravidão, manteve as bases para a exploração capitalista sistêmica.

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### **1. Contexto Histórico: A Contradição entre Escravidão e Capitalismo Industrial**

#### **a) Escravidão como obstáculo ao capitalismo**

- **Modo de produção escravista**: O Sul agrário baseava-se na escravidão racializada, que garantia lucros através do algodão, tabaco e açúcar. Esse sistema, porém, era **incompatível com o capitalismo industrial** do Norte, que dependia de mão de obra assalariada, expansão de mercados e acumulação flexível.

- **Crise estrutural**: A expansão territorial (ex.: Kansas-Nebraska Act, 1854) exacerbou o conflito entre escravidão e trabalho livre. Para Marx, a escravidão era um "anacronismo" que impedia a **racionalização capitalista do trabalho** e a unificação do mercado interno.

#### **b) A Guerra Civil como Revolução Burguesa**

- **Interesses de classe**: A burguesia industrial do Norte via na escravidão uma ameaça à sua hegemonia. A guerra foi, em essência, uma **revolução burguesa** para eliminar um modo de produção arcaico e consolidar o capitalismo nacional.

- **Marx e a Guerra Civil**: Karl Marx, em artigos para o *New York Tribune*, defendeu o Norte como força progressista, afirmando que a abolição da escravidão era **condição para o desenvolvimento das forças produtivas**.

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### **2. Lincoln: Agente da Burguesia e da Unificação Nacional**

#### **a) A Política da "Casa Dividida"**

- **Preservação da União**: Lincoln inicialmente priorizou a unificação territorial, mas a pressão abolicionista e a lógica da guerra o levaram à **Emancipação Proclamada** (1863) e à **13ª Emenda** (1865). Essas medidas, embora revolucionárias, foram estratégicas: enfraqueceram a economia do Sul e garantiram apoio internacional ao Norte.

- **Limites da abolição**: A libertação dos escravizados não garantiu direitos civis ou econômicos. A **exploração racial** persistiu através do *sharecropping* (parceria agrícola) e do apartheid *Jim Crow*, mantendo os trabalhadores negros em condições próximas à servidão.

#### **b) Estado e Classe no Pós-Guerra**

- **Consolidação do capitalismo industrial**: Com o Sul derrotado, o Norte impôs uma **reconstrução burguesa** (1865–1877), modernizando a economia sulina e integrando-a ao mercado nacional. Políticas como o *Homestead Act* (1862) incentivaram a expansão para o Oeste, promovendo a **acumulação primitiva** através da expropriação de terras indígenas.

- **Aliança de classes**: Lincoln representou a aliança entre industriais do Norte, pequenos agricultores e trabalhadores brancos, mas ignorou as demandas por justiça racial e social, evidenciando os **limites da democracia burguesa**.

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### **3. Contradições e Limites do Lincolnismo**

#### **a) A Questão Racial e a "Dívida Não Paga"**

- **Abolição sem reparação**: A libertação dos escravizados não incluiu redistribuição de terras ou indenizações, perpetuando a pobreza estrutural da população negra. Enquanto isso, ex-escravocratas mantiveram o poder político local.

- **Trabalho assalariado e superexploração**: A abolição formalizou a transição para o **trabalho livre**, mas os trabalhadores negros e imigrantes foram submetidos a condições precárias, integrando-se à classe trabalhadora como **segmento superexplorado**.

#### **b) Lincoln entre o Progresso e a Conservação**

- **Visão limitada de liberdade**: Lincoln, embora opositor da escravidão, defendia uma **ordem racial hierárquica** (ex.: apoio inicial à colonização de negros na África). Sua retórica de "liberdade" mascarou a **exploração capitalista** que se consolidou após a guerra.

- **Repressão à classe trabalhadora**: Durante a Guerra Civil, Lincoln apoiou a repressão a greves (ex.: greve de trabalhadores ferroviários em 1863), revelando seu compromisso com a **estabilidade do capital**, não com os direitos dos trabalhadores.

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### **4. Conclusão: Lincoln como Símbolo da Revolução Burguesa Incompleta**

A presidência de Lincoln foi um **momento revolucionário** na história dos EUA, pois destruiu a escravidão e pavimentou o caminho para o capitalismo industrial. No entanto, seu legado é **duplo**:

1. **Progressista**: A abolição da escravidão foi um avanço histórico, alinhado aos interesses do desenvolvimento capitalista e à luta contra a opressão racial.

2. **Limitado**: A "liberdade" pós-guerra manteve a **exploração de classe e raça**, consolidando um sistema onde trabalhadores brancos e negros eram submetidos à acumulação capitalista, enquanto a burguesia industrial dominava.

Como escreveu Marx em *O Capital*, a história da humanidade é marcada por **lutas de classes**, e Lincoln foi um instrumento dessa dinâmica. Sua administração ilustra como revoluções burguesas, embora destruam relações pré-capitalistas, **não eliminam a exploração** — apenas a reorganizam sob novas formas. A "Nova Liberdade" de Lincoln, portanto, foi menos um fim em si e mais um passo na construção de um **capitalismo racializado e desigual**, cujas contradições persistem até hoje.

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