Sri Ramakrishna cantou e dançou com os devotos que dançaram à sua volta.
Quando a canção acabou o Mestre começou a andar de lá para cá, na varanda nordeste onde Hazra estava
sentado com M. O Mestre sentou-se e perguntou a um devoto: “Você sonha sempre?”
Devoto: “Sim, senhor. Outro dia tive um sonho estranho. Vi o mundo inteiro envolvido em água. Havia água
por todos os lados. Somente alguns barcos podiam ser vistos, mas de repente, imensas ondas apareceram e
afundaram-nos. Estava a ponto de embarcar com algumas pessoas, quando vi um brahmin andando sobre as
águas. Perguntei-lhe: ‘Como pode o senhor caminhar sobre as águas?’ O brahmin respondeu-me com um
sorriso: ‘Ó, não há qualquer dificuldade. Há uma ponte debaixo d’água.’ Disse-lhe: ‘Onde o senhor vai?’ ‘A
Bhawanipur, a cidade da Mãe Divina’, respondeu. ‘Espere um pouco’, gritei, ‘Vou lhe acompanhar.’ ”
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Mestre: “Ó, estou muito impressionado, ouvindo essa história.”
Devoto: “O brahmin disse: ‘Estou com pressa. Você ainda terá um certo tempo para sair do barco. Adeus.
Lembre-se desse caminho e siga-me num outro barco.’ ”
Mestre: “Ó! Meu cabelo está de pé! Por favor seja iniciado por um guru o mais breve possível.”
Um pouco depois da meia-noite, Narendra e outros devotos foram se deitar no quarto do Mestre.
Ao amanhecer alguns devotos levantaram-se e viram o Mestre nu como uma criança, andando de um lado para
o outro no quarto, repetindo os nomes de vários deuses e deusas. Sua voz era doce como néctar. Ora olhava
para o Ganges, ora parava em frente dos quadros e curvava-se diante deles, cantando o tempo todo, os seus
santos nomes, com voz suave. Cantou: “Veda, Puranas, Tantras, Gita, Gayatri, Bhagavata, Bhakta, Bhagavan.”
Referindo-se ao Gita, repetiu inúmeras vezes: “Tagi, tagi, tagi ” e de vez em quando dizia: “Ó Mãe, Tu és
realmente Brahman e Tu és realmente Shakti. Tu és Purusha e Tu és Prakriti. Tu és Virat. Tu és o Absoluto e
Tu Te manifestas como o Relativo. Tu és realmente os vinte e quatro princípios cósmicos.”
Nesse meio tempo, o serviço já tinha começado nos templos de Kali e Radhakanta. Sons das conchas acústicas
e pratos pairavam no ar. Os devotos saíram do quarto e viram os sacerdotes e empregados apanhando flores no
jardim para o culto nos templos. Do nahabat flutuava a suave melodia dos instrumentos musicais, apropriados
para aquela hora da manhã.
Narendra e outros devotos terminaram suas obrigações da manhã e vieram até o Mestre. Com um doce sorriso
nos lábios, Sri Ramakrishna estava de pé na varanda nordeste, perto de seu quarto.
Narendra: “Vimos vários sannyasis pertencentes à seita de Nanak no Panchavati.”
Mestre: “Sim, chegaram ontem. (A Narendra): Gostaria que todos se sentassem, na esteira.”
Quando assim o fizeram, o Mestre olhou-os com alegria. Começou, então, a conversar. Narendra perguntou a
respeito de disciplina espiritual..
Mestre: “Bhakti, o amor de Deus, é a essência de toda a disciplina. Pelo amor, uma pessoa adquire renúncia e
discriminação de forma natural.”
Narendra: “Não é verdade que os Tantras prescrevem disciplina espiritual na companhia de mulher?”
Mestre: “Isso não é desejável. É um caminho muito difícil e muitas vezes ocasiona a queda do aspirante. Há
três tipos de disciplinas. Podemos considerar a mulher como sua amante. Ou considerar-se sua serva ou seu
filho. Olho a mulher como minha mãe. Ver-se como serva é bom também; mas é extremamente difícil praticar
disciplina espiritual olhando a mulher como amante. Considerar-se seu filho é uma atitude muito pura.”
Os sannyasis pertencentes à seita de Nanak entraram no aposento e saudaram o Mestre, dizendo: “Namo
Narayanaya ”. Sri Ramakrishna pediu que se sentassem.
Mestre: “Nada é impossível para Deus. Ninguém pode descrever Sua natureza por meio de palavras. Tudo é
possível para Ele. Num certo lugar viviam dois yogis que praticavam disciplinas espirituais. Um dia o sábio
Narada passou por ali. Percebendo quem ele era, um dos yogis disse-lhe: ‘O senhor acabou de estar com o
Próprio Deus. O que Ele está fazendo agora?’ Narada responde: ‘Ora, eu O vi passar e tornar a passar camelos
e elefantes pelo buraco de uma agulha.’ A isso o yogi disse: ‘O que há de extraordinário nisso? Tudo é
possível para Deus.’ Mas o outro yogi disse: ‘O que? Fazer elefantes passar pelo buraco de uma agulha? Será
isso possível acontecer alguma vez? O senhor jamais esteve na casa de Deus.’ ”
Às nove horas da manhã, quando o Mestre ainda estava em seu quarto, Manomohan chegou de Konnagar com
alguns membros de sua família. Às perguntas gentis de Sri Ramakrishna, Manomohan explicou que os estava
levando para Calcutá. O Mestre disse: “Hoje é o primeiro dia do mês bengali, auspicioso para se fazer uma
viagem. Espero que tudo venha a correr bem com vocês.” Com um sorriso, começou a falar de outros
assuntos.
Quando Narendra e seus amigos voltaram do seu banho no Ganges, o Mestre falou-lhes francamente: “Vão
meditar no Panchavati, debaixo do baniano. Querem algo para se sentarem?”
Mais ou menos às dez e meia Narendra e seus amigos Brahmos estavam meditando no Panchavati. Depois de
algum tempo, Sri Ramakrishna chegou, M. também estava presente.
O Mestre disse aos devotos Brahmos: “Na meditação a pessoa deve permanecer absorvida em Deus. Se ficar
flutuando na superfície da água, pode alguém alcançar as pedras preciosas que jazem no fundo do mar?”
Em seguida cantou:
Tomando o nome de Kali, mergulhe profundamente, Ó mente,
Nas profundezas insondáveis do coração,