“Como é o leite? Ó, vocês dizem que é algo branco. Não podem pensar em leite sem sua brancura e também,

pensar na brancura sem pensar no leite.

“Assim, não se pode pensar em Brahman sem Shakti, ou em Shakti sem Brahman.

Não se pode pensar no Absoluto sem o Relativo, ou no Relativo sem o Absoluto.

“O Poder Primordial está sempre em ação . Está sempre criando, preservando e destruindo, como um jogo.

Este Poder é chamado Kali. Kali é na verdade, Brahman e Brahman é de fato, Kali. É uma e mesma

Realidade. Quando pensamos n’Ela como inativa, quer dizer, não engajada na criação, preservação e

destruição, A chamamos Brahman, mas quando Ela está ocupada nessas atividades, A chamamos Kali ou

Shakti. A Realidade é uma e a mesma: a diferença está em nome e forma.

“É como a água, chamada em diferentes línguas por nomes diferentes, como ‘jali’, ‘pani' e assim por diante.

Há três ou quatro ghats no lago. Os hindus bebem água num lugar, chamam-na ‘jal’. Os muçulmanos num

outro lugar, chamam-na ‘pani’. E os ingleses num terceiro lugar, ‘water’. Os três nomes denotam uma e

mesma coisa, a diferença está somente no nome. De algum modo, alguns dirigem-se à Realidade como ‘Alá’,

alguns como ‘Deus’, alguns como ‘Brahman’ ou ‘Kali’, e outros por nomes como ‘Rama’, ‘Jesus’, ‘Durga’,

‘Hari’.

Keshab (sorrindo): “Descreve-nos, senhor, de quantas maneiras Kali, a Mãe Divina, brinca neste mundo.”

Mestre (com um sorriso): “Ó, Ela brinca de diferentes modos. É somente Ela que é conhecida como MahaKali, Nitya-Kali, Shmasana-Kali, Raksha Kali e Shyama-Kali. Maha-Kali e Nitya-Kali estão mencionadas na filosofia tântrica. Quando não existia nem criação, nem o sol, a lua, os planetas e a terra e quando a escuridão estava envolta na escuridão, então a Mãe, a Sem Forma, Maha-Kali, o Grande Poder, era una com Maha-Kali, a Absoluta.

“Shyama-Kali tem um aspecto um tanto terno e é adorada pelos chefes de família hindus. É doadora de Graças

e Dissipadora do medo. O povo adora Raksha-Kali, a Protetora, quando ocorrem epidemias, fome, terremotos,

seca e enchente. Shmasana-Kali é a Encarnação do poder de destruição. Habita nos crematórios, cercada de

cadáveres, chacais e terríveis espíritos femininos. Da boca sai um fluxo de sangue, em Seu pescoço está

dependurado um colar de cabeças humanas e em Sua cintura, um cinto feito de mãos humanas.

“Depois da destruição do universo, no final de um grande ciclo, a Mãe Divina armazena as sementes para a

próxima criação. Ela é como a senhora mais velha de uma casa, que tem um pote onde guarda os diferentes

utensílios para o uso doméstico. (Todos riem).

O evangelho de Sri Ramakrishna

Capítulo V

27 de outubro de 1882

O Mestre e Keshab

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