**Análise Marxista do Massacre do Carandiru: Violência Estatal, Classe e Racismo no Brasil Neoliberal**
O Massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992, quando a Polícia Militar de São Paulo assassinou 111 presos durante uma rebelião na Casa de Detenção, é um exemplo emblemático da **violência estrutural do Estado capitalista** contra as classes subalternas. Sob uma perspectiva marxista, o evento não foi um "excesso policial", mas uma expressão da **função repressiva do Estado** em defesa de um sistema que marginaliza, criminaliza e extermina corpos considerados "excedentes" pelo capitalismo. Abordaremos as raízes históricas, a função do encarceramento em massa e a interseccionalidade entre classe, raça e necropolítica.
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### **1. Contexto Histórico: Neoliberalismo e Exclusão Social**
#### **a) Crise econômica e criminalização da pobreza:**
- Na década de 1990, o Brasil adotou políticas neoliberais (ex.: Plano Collor, privatizações) que aprofundaram a desigualdade. O desemprego e a miséria cresceram, especialmente nas periferias urbanas.
- O **encarceramento em massa** tornou-se uma resposta à "questão social": em 1992, 73% dos presos no Carandiru eram negros, e 90% não tinham ensino médio completo. A prisão era (e ainda é) um depósito para a classe trabalhadora marginalizada.
#### **b) Rebelião como luta por dignidade:**
- A rebelião no Carandiru começou após um confronto entre presos por causa de um extintor de incêndio. A revolta refletia as **condições subumanas** do presídio: superlotação (7.000 presos em espaço para 3.500), falta de água e tortura sistemática.
- A reação do Estado (PM) foi **violência desproporcional**, com tiros à queima-roupa, execuções sumárias e ocultação de corpos. Dos 111 mortos, apenas 18 tinham passagem por crimes violentos, evidenciando que a maioria era de jovens pobres criminalizados por pequenos delitos.
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### **2. Estado, Classe e Repressão Sistêmica**
#### **a) O Estado como instrumento da burguesia:**
- Marx afirmou que o Estado é um "comitê executivo da classe dominante". No Carandiru, a PM agiu para **manter a ordem burguesa**, reprimindo aqueles que o sistema não consegue integrar. A impunidade dos policiais (apenas em 2013, 21 anos depois, houve condenações) mostra a **seletividade do Direito**.
- **Função ideológica**: O massacre foi legitimado pela mídia burguesa, que desumanizou os presos ("bandidos merecem morrer"), reproduzindo a ideologia da "guerra às drogas" para justificar a violência estatal.
#### **b) Polícia Militar: braço armado do capital:**
- A PM paulista, herdeira da Guarda Nacional do Império escravista, foi treinada para reprimir revoltas populares (ex.: greves operárias no ABC nos anos 1980). No Carandiru, seu papel foi **eliminar fisicamente corpos indesejados**, garantindo que a força de trabalho precarizada não se organizasse.
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### **3. Racismo Estrutural e Necropolítica**
#### **a) Genocídio negro em curso:**
- O Carandiru é parte do **genocídio da população negra** no Brasil. Dos 111 mortos, 97 eram negros. A violência policial segue lógica colonial: como escreveu **Abdias do Nascimento**, o Estado brasileiro trata a população negra como "inimiga interna".
- **Necropolítica**: Conceito de Achille Mbembe sobre o poder de decidir quem pode viver ou morrer. No Carandiru, o Estado escolheu quem deveria ser sacrificado para manter a ilusão de segurança da classe média.
#### **b) Criminalização da juventude periférica:**
- A maioria dos presos era de jovens negros das periferias de São Paulo, vítimas do **racismo estrutural** e do apartheid urbano. O massacre antecipou a letalidade policial atual: em 2023, a PM paulista matou 1.122 pessoas, 80% negras.
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### **4. Resistência e Memória: Luta de Classes no Cárcere**
#### **a) A rebelião como ato político:**
- A rebelião no Carandiru não foi um "motim caótico", mas um **ato de resistência** contra condições desumanas. Presos exigiam água, comida e fim da tortura, mostrando que mesmo no cárcere há luta de classes.
- **Legado**: O massacre inspirou movimentos como o **MPL (Movimento Passe Livre)** e coletivos culturais (ex.: *Racionais MC's*, que denunciaram o evento em letras como *"Diário de um Detento"*).
#### **b) Impunidade e luta por justiça:**
- Apenas em 2013, após pressão de movimentos sociais, 74 PMs foram condenados, mas a maioria recorreu e segue em liberdade. A lentidão da justiça reflete a **aliança entre Estado e violência policial**.
- Mães e familiares das vítimas organizaram-se no **Movimento dos Familiares de Vítimas do Carandiru**, exigindo memória e reparação.
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### **5. Conclusão: O Carandiru como Símbolo do Brasil Capitalista**
O Massacre do Carandiru não foi um acidente, mas um **produto do capitalismo racial e neoliberal**, que descarta vidas para manter a acumulação. Enquanto houver miséria, racismo e Estado burguês, haverá massacres. Como disse **Marielle Franco**:
> *"Quantos mais vão morrer até que paremos de matar nossos jovens?"*
A luta contra o genocídio exige **socialização da riqueza, desmilitarização da PM e justiça racial**, pilares de uma revolução que destrua as bases materiais da opressão.