"O mais elevado é o conhecimento daquilo através do qual se conhece a realidade imutável.
Através disso, é totalmente revelado aos sábios aquilo que transcende os sentidos, que não tem causa, que é indefinível, que não tem olhos nem ouvidos, nem mãos nem pés, que tudo permeia, que é mais sutil do que o mais sutil - o que dura eternamente, a origem de tudo.
"Como a teia vem da aranha, como as plantas crescem do solo e o cabelo do corpo do homem,
assim jorra o Universo do eterno Brahman.
"Brahman quis que fosse assim, e extraiu de si mesmo a causa material do Universo; disso veio a energia primordial; e da energia primordial a mente; da mente os elementos sutis; dos elementos sutis os diversos mundos; e de ações realizadas por seres nos diversos mundos a cadeia de causa e efeito a recompensa e punição das ações.
"Brahman tudo vê, tudo sabe; ele é o próprio conhecimento. Dele nascem a inteligência cósmica, o nome, a forma, e a causa material de todos os seres criados e das coisas."
Finitos e transitórios são os frutos dos rituais de sacrifício. Os iludidos, que os encaram como os mais elevados bens, permanecem sujeitos ao nascimento e à morte.
Vivendo no abismo da ignorância, porém sábios em seu próprio conceito, os iludidos dão voltas e voltas, como cegos levados por cegos.
Vivendo no abismo da ignorância, embora sábios em seu próprio conceito, os iludidos se crêem abençoados. Apegados a palavras, não conhecem Deus.
As ações levam-nos apenas ao céu, onde, para sua tristeza, suas recompensas rapidamente se esgotam, e são lançados de volta à Terra.
Ao considerarem a religião como sendo a execução de rituais e a prática de ações de caridade, os iludidos permanecem ignorantes do bem mais elevado. Após aproveitar no céu a recompensa das suas boas ações, eles penetram novamente no mundo dos mortais.
Porém as almas sábias e tranqüilas e que possuem autocontrole -que estão satisfeitas em espírito, e que praticam a austeridade e a meditação na solidão e no silêncio são libertadas de toda impureza, e atingem, através do caminho da liberação para o imortal, o que verdadeiramente existe, o imutável Eu.
Que o homem dedicado à vida espiritual examine cuidadosamente a natureza efêmera de tal prazer, seja aqui ou no além, como pode ser obtido através de boas ações, e perceba assim que não é pelas
ações que se ganha o Eterno.
Que não dê atenção às coisas transitórias, e sim que, absorto na meditação, renuncie ao mundo. Para conhecer o Eterno, que se aproxime humildemente de um Guru dedicado a Brahman e que conheça bem as escrituras.
A um discípulo que se aproxima reverentemente, que é tranqüilo e possui autocontrole, o mestre sábio, sinceramente e sem restrição, fornece esse conhecimento através do qual é conhecido o que
verdadeiramente existe, o Eu imutável.
O Imperecível é o Real. Assim como inúmeras fagulhas sobem de um fogo flamejante, das profundezas do Imperecível surgem todas as coisas. Para as profundezas do Imperecível elas tornam a
descer.
Dotado de luz própria é esse Ser, e não possui forma. Ele habita dentro de tudo e fora de tudo. Ele nunca nasceu, é puro, maior do que o maior, não possui alento, não possui mente.
Dele nascem o sopro vital, a mente, os órgãos dos sentidos, o éter, o ar, o fogo, a água e a terra, e ele mantém tudo isso unido.
O céu é a sua cabeça, o Sol e a Lua os seus olhos, as quatro fases os seus ouvidos, as escrituras reveladas a sua voz, o ar o seu fôlego, o Universo o seu coração. Dos seus pés veio a Terra. Ele é o mais
profundo Eu de todos.
Dele surge o céu iluminado pelo Sol, do céu a chuva, da chuva o alimento, e do alimento a semente que o homem dá à mulher.
Assim, todas as criaturas descendem dele.
Dele saem os hinos, os cantos devocionais, as escrituras, os rituais, os sacrifícios, as oblações, as divisões do tempo, o que age e a ação, e todos os mundos iluminados pelo Sol e purificados pela Lua.
Dele nascem deuses de diversas descendências. Dele nascem anjos, homens, feras, pássaros; dele nascem a vitalidade e o alimento para sustentá-la; dele vêm a austeridade e a meditação, a fé, a verdade, a
continência e a lei.
Dele jorram os órgãos dos sentidos, suas atividades, e seus objetos, junto com a consciência desses objetos. Todas essas coisas, partes da natureza do homem, saem dele.
Nele os mares e as montanhas têm sua origem; dele jorram os rios, e dele nascem as ervas e outros elementos que sustentam a vida, com a ajuda dos quais o corpo sutil do homem subsiste no corpo físico.
Assim, Brahman é tudo em tudo. Ele é ação, conhecimento, bondade suprema. Conhecê-lo, oculto no lótus do coração, é desatar o nó da ignorância.
OM . . .
Com nossos ouvidos, ouçamos o que ê bom.
Com nossos olhos, contemplemos vossa integridade.
Tranqüilos no corpo, possamos nós, que vos veneramos,
encontrar descanso.
OM . . . Paz - paz - paz.
Mundaka Upanishad
Tradução de Swami Prabhavananda
