“Às vezes eu tinha o hábito de assumir um estado rajásico a fim de praticar renúncia. Um dia tive o desejo de
vestir uma roupa bordada em ouro, um anel no dedo e fumar um longo cachimbo.
Mathur Babu providenciou
todas essas coisas para mim. Usei a roupa bordada em ouro e disse para mim mesmo, depois de um certo
tempo. ‘Mente! É isso que é chamada uma roupa bordada em ouro’. Então me desfiz dela. Não podia suportála mais.
Novamente disse a mim mesmo: ‘Mente! Isto chama-se xale, isto é anel e isto, fumar um longo
cachimbo.’ Desfiz-me dessas coisas de uma vez por todas e nunca mais o desejo de desfrutá-las surgiu em
minha mente.”
Era o entardecer. O Mestre e M. permaneceram de pé, conversando sozinhos perto da porta, na varanda
sudeste.
Mestre (a M.): “A mente do yogi está sempre absorta no Ser.
Pode-se reconhecer tal homem, simplesmente
olhando para ele. Seus olhos estão muito abertos, sem alvo certo, tal qual o olhar de uma mãe passarinho
chocando os ovos. A mente inteira está dirigida para os ovos e há um olhar vago nos olhos. Pode mostrar-me
um quadro como esse?”
M.: “Vou tentar obter.”
Como a noite estava chegando, os templos foram iluminados. Sri Ramakrishna estava sentado em seu divã
pequeno, meditando na Mãe Divina. Passou a cantar os nomes de Deus. Queimou-se incenso no aposento
onde um lampião a óleo fora aceso.
Os sons das conchas e gongos flutuavam no ar, quando o culto começou
no templo de Kali. O luar inundava. O Mestre novamente dirigiu-se a M.
Mestre: “Cumpra todas as suas obrigações de forma desinteressada.
O trabalho que Vidyasagar realiza é muito
bom. Procure sempre cumprir seus deveres, sem desejar qualquer resultado.”
M.: “Sim, senhor. Posso saber se uma pessoa pode realizar Deus enquanto leva a cabo seus deveres? Podem
‘Rama’ e ‘desejo’ coexistirem? Outro dia li num verso hindi: ‘Onde está Rama, não pode haver qualquer
desejo; onde está o desejo, Rama não pode estar’.”
Mestre: “Todos, sem exceção, fazem um trabalho. Mesmo cantar o nome e as glórias do Senhor é trabalho;
também, é a meditação não-dualista ‘Eu sou Ele’. Respirar é uma atividade. Não há como renunciar
completamente à ação e portanto, faça seu trabalho, mas entregue os frutos a Deus.”
M.: “Senhor, posso me esforçar para ganhar mais dinheiro?”
Mestre: “É permitida tal coisa a fim de manter uma família religiosa. Pode-se aumentar a renda familiar, mas
de forma honesta. A meta da vida não é ganhar dinheiro, mas servir a Deus. O dinheiro não é prejudicial se for
dedicado ao serviço de Deus.”
M.: “Por quanto tempo um homem tem obrigações com esposa e filhos?”
Mestre: “Enquanto tiverem necessidade de comida e roupa, mas uma pessoa não tem responsabilidade em
relação a um filho, quando este estiver em condições de se manter.
Quando a avezinha já tiver condições de
encontrar seu próprio alimento, a mãe a bica se ela lhe pedir comida.”
M.: “Por quanto tempo deve uma pessoa cumprir seus deveres?”
Mestre: “As flores caem quando a fruta aparece. Não se tem que cumprir qualquer dever, depois de ter
alcançado Deus, nem sentir-se inclinado a fazê-lo.
O Evangelho de Sri Ramakrishna
Capítulo IV
Conselho aos Chefes de Família
13 de agosto de 1882