GALO GALO

(Ferreira Gullar)

O galo

no salĂŁo quieto.

Galo galo

de alarmante crista, guerreiro,

medieval.

De cĂłrneo bico e

esporÔes,  armado

contra a morte,

passeia.

Mede os passos.  Påra.

Inclina a cabeça coroada

dentro do silĂȘncio

— que faço entre coisas?

— de que me defendo?

Anda.

no saguĂŁo.

O cimento esquece

o seu Ășltimo passo.

Galo: as penas que

florescem da carne silenciosa

e duro bico e as unhas e o olho

sem amor. Grave

solidez.

Em que se apĂłia

tal arquitetura ?

SaberĂĄ que, no centro

de seu corpo, um grito

se elabora ?

Como,  porém, conter,

uma vez concluĂ­do,

o canto obrigatĂłrio ?

Eis que bate as asas, vai

morrer, encurva o vertiginoso pescoço

donde o canto rubro escoa

Mas a pedra, a tarde,

o prĂłprio feroz galo

subsistem ao grito.

VĂȘ-se:  o canto Ă© inĂștil.

O galo permanece — apesar

de todo o seu porte marcial —

sĂł, desamparado,

num saguĂŁo do mundo.

Pobre ave guerreira!

Outro grito cresce

agora no sigilo

de seu corpo; grito

que, sem essas penas

e esporÔes e crista

e sobretudo sem esse olhar

de Ăłdio,

nĂŁo seria tĂŁo rouco

e sangrento.

Grito, fruto obscuro

e extremo dessa ĂĄrvore: galo.

Mas que, fora dele,

Ă© mero complemento de auroras.

[SĂŁo LuĂ­s, abril de 1951]

Reply to this note

Please Login to reply.