Yagnavalkya (para sua esposa):
Maitreyi, estou resolvido a renunciar ao mundo e a iniciar a vida de renúncia. Desejo, portanto, dividir minha propriedade entre tu e minha outra esposa, Katyayani.
Maitreyi:
Meu senhor, se toda esta terra me pertencesse, com toda sua riqueza, através dessa posse alcançaria eu a imortalidade?
Yagnavalkya:
Não, vossa vida seria como a do rico. Ninguém pode absolutamente esperar alcançar a imortalidade através da riqueza.
Maitreyi:
Então, que necessidade tenho da riqueza? Por favor, meu senhor, dizei-me o que sabeis sobre o caminho para a imortalidade.
Yagnavalkya:
Tens sido sempre muito querida para mim, Maitreyi, e agora me pedes para aprender a verdade que está mais próxima do meu coração. Vem, senta-te ao meu lado. Eu a explicarei a ti. Medita sobre o que vou falar:
Não é por causa do marido, minha amada, que o marido é querido, e sim por causa do Eu.
Não é por causa da esposa, minha amada, que a esposa é querida, e sim por causa do Eu.
Não é por causa dos filhos, minha amada, que os filhos são queridos, e sim por causa do Eu.
Não é por causa da riqueza, minha amada, que a riqueza é querida, e sim por causa do Eu.
Não é por causa dos Brahmins, minha amada, que os Brahmins são reverenciados, e sim por causa do Eu.
Não é por causa dos mundos mais elevados, minha amada, que os mundos mais elevados são desejados, e sim por causa do Eu.
Não é por causa dos deuses, minha amada, que os deuses são adorados, e sim por causa do Eu.
Não é por causa das criaturas, minha amada, que as criaturas são queridas, e sim por causa do Eu.
Não é por causa de si própria, minha amada, que qualquer coisa é estimada, e sim por causa do Eu.
O Eu, amada Maitreyi, deve ser conhecido. Ouve a respeito dele, reflete sobre ele, medita sobre ele. Através do conhecimento do Eu, minha amada, escutando, refletindo e meditando, chega-se a conhecer todas as coisas.
Que o Brahmin ignore aquele que pensa que o Brahmin é diferente do Eu.
Que o Kshatriya ignore aquele que pensa que o Kshatriya é diferente do Eu.
Que os mundos mais elevados ignorem aquele que pensa que os mundos mais elevados são diferentes do Eu.
Que os deuses ignorem aquele que pensa que os deuses são diferentes do Eu.
Que todas as criaturas ignorem aquele que pensa que as criaturas são diferentes do Eu.
Que todos ignorem aquele que pensa que qualquer coisa seja diferente do Eu.
O sacerdote, o guerreiro, os mundos mais elevados, os deuses, as criaturas, seja que coisas forem
esses são o Eu.
Como, quando o tambor é tocado, suas diversas notas específicas não são ouvidas separadas do todo, mas todas as suas notas são ouvidas no som global; como, quando o búzio é tocado, suas diversas
notas específicas não são ouvidas separadas do todo, mas todas as suas notas são ouvidas no som global assim, através do conhecimento do Eu, Inteligência Pura, todas as coisas e seres são conhecidos.
Não há existência separada do Eu.
Como fumaça e fagulhas se levantam de um fogo aceso com lenha úmida, assim, Maitreyi, todo o conhecimento e toda a sabedoria emanaram do Eterno o que conhecemos como Rig Veda, Yajur Veda, e o mais. Eles são o Sopro Vital do Eterno.
Como para a água o único centro é o oceano, como para o tato o único centro é a pele, como para o olfato o único centro é o nariz, como para o paladar o único centro é a língua, como para a forma o único centro são os olhos, como para o som o único centro são os ouvidos, como para o pensamento o único centro é a mente,
Como um torrão de sal, quando atirado na água, se derrete e não pode ser retirado, mas quando provamos a água ela está salgada, assim, Ó Maitreyi, o Eu individual, dissolvido, é o Eterno - consciência
pura, infinita e transcendente.
A individualidade surge pela identificação do Eu, através da ignorância, com os elementos; e com o desaparecimento da consciência dos muitos, na iluminação divina, ela desaparece.
Onde existe a consciência do Eu, não há mais a individualidade.
É isso, minha amada, o que eu desejava dizer-te.
Maitreyi:
"Onde existe a consciência do Eu, não há mais a individualidade": isso que dizeis, meu senhor, confunde-me.
Yagnavalkya:
Minha amada, não deixe que nada do que eu disse te confunda. Porém, medita bem sobre a verdade que falei.
Enquanto existe a dualidade, um vê o outro, um ouve o outro, um pensa no outro, um conhece o outro; porém, quando para a alma iluminada o todo é dissolvido no Eu, quem está ali para ser visto por
quem, quem está ali para ser cheirado por quem, quem está ali para ser ouvido por quem, quem está ali para ser falado por quem, quem está ali para ser pensado por quem, quem está ali para ser conhecido por quem?
Ah, Maitreyi, minha amada, a Inteligência que tudo revela pelo que será ela revelada? Por quem será o Conhecedor conhecido? 0 Eu é descrito como não isso, não aquilo. Ele é incompreensível, pois não pode ser compreendido; indeteriorável, pois nunca se deteriora; livre, pois nunca se apega; não-vinculado, pois nunca se vincula. Por quem, Ó minha amada, será o Conhecedor conhecido?
Isso é o que te ensino, Ó Maitreyi. Essa é a verdade da imortalidade.
Falando dessa forma, Yagnavalkya entrou no caminho da renúncia.
OM...
Completamente preenchidas com Brahman estão as coisas que vemos,
Completamente preenchidas com Brahman estão as coisas que não vemos,
De Brahman flui tudo o que existe:
De Brahman tudo ainda assim, ele é o mesmo.
OM... Paz - paz - paz.
Levai-me do irreal para o real.
Levai-me da escuridão para a luz.
Levai-me da morte para a imortalidade.
Om Purnamadah Purnamidam Purnat Purna mudatchyatê
Purnasya Purna madaya Purna meva vashisyatê
Om, shanti, shanti, shanti.
oṃ asato mā sad gamaya
tamaso mā jyotir gamaya
mṛtyor mā 'mṛtaṃ gamaya
oṃ śhāntiḥ śhāntiḥ śhāntiḥ
BRIHADARANYAKA upanishad
tradução swami Prabhavananda
Ordem Ramakrishna
