Alguns dias depois M. visitou o Mestre em Dakshineswar.
Eram entre quatro e cinco horas da tarde. O Mestre
e ele estavam sentados nos degraus que levavam aos templos de Shiva.
Olhando para o templo de Radhakanta
do outro lado do pátio, o Mestre entrou em êxtase. Desde a demissão de seu sobrinho Hriday do templo, Sri Ramakrishna estava sem atendente.
Devido aos seus
constantes estados espirituais, mal podia tomar conta de si.
A falta de uma pessoa para ajudá-lo, causava-lhe
grande inconveniência.
Sri Ramakrishna conversava com Kali, a Mãe Divina do universo. Disse:
“Mãe, todo mundo diz:
‘Só meu
relógio está certo’.
Os cristãos, os brahmins, os hinduístas, os maometantos, todos dizem:
‘Só a minha religião
é a verdadeira’. Mas Mãe, o fato é que o relógio de ninguém está certo.
Quem pode realmente entender-Te?
Mas se um homem ora a Ti com o coração ansioso, pode alcançar-Te, por Tua graça, por qualquer caminho.
Mãe, um dia mostra-me como os cristãos oram a Ti em suas igrejas.
Mas Mãe, o que dirão as pessoas se eu
entrar em suas igrejas? Tu achas que criarão caso? Ou que não me permitirão mais entrar no templo de Kali?
Mostra-me, então, como é o culto dos católicos, visto da porta da igreja.”
Outro dia, o Mestre estava sentado no divã pequeno, no seu quarto, com o costumeiro semblante radiante.
M.
chegou com seu amigo Kalikrishna, que não sabia para onde o seu amigo o estava conduzindo.
M. dissera-lhe:
“Se você quer ver um local onde se vendem bebidas alcoólicas, venha comigo. Lá verá um grande jarro com
vinho”.
M. contou isso para Sri Ramakrishna que riu muito.
O Mestre disse: “A felicidade do culto e a
comunhão com Deus é o verdadeiro vinho, o vinho do amor extasiante.
A meta da vida humana é amar Deus.
Bhakti é a única coisa essencial.
Conhecer Deus através da jnana e raciocínio é extremamente difícil”.
O Mestre cantou:
Quem existe que pode compreender o que a Mãe Kali é?
Mesmo os seis darsanas não têm poder para revelá-La. ...
O Mestre disse de novo:
“A única meta da vida é cultivar o amor a Deus, o mesmo amor que as ordenhadoras,
as leiteiras e os pastores de Vrindavan sentiam por Krishna.
Quando Krishna foi embora para Mathura, os
pastores perambulavam chorando amargamente sua separação d’Ele.
Dizendo isso, o Mestre cantou com os olhos voltados para cima:
Há pouco vi um jovem pastor
Com um bezerrinho nos braços.
Ali ficou de pé, segurando em uma das mãos
O galho de uma árvore nova.
“Onde estás Tu, Irmão Kanai?” gritou:
Mas mal podia pronunciar “Kanai”:
“Ka” era o máximo que podia dizer.
Lamentou: “Onde estás Tu, Irmão?”
E os olhos encheram-se de lágrimas.
Ao ouvir esta canção do Mestre, cheia de amor, os olhos de M. encheram-se de lágrimas.
Um devoto:
“Então qual é o caminho, senhor?”
Mestre:
“Oração e a companhia dos homens santos.
Não se pode ficar bom de uma doença sem a ajuda de um
médico. Não é suficiente ficar na companhia de pessoas religiosas somente por um dia.
Deve-se procurá-las
constantemente, porque a doença tornou-se crônica.
Também não se pode interpretar o pulso corretamente se
não viver com um médico.
Estando com ele constantemente, uma pessoa aprende a diferenciar a pulsação da
fleuma, da pulsação da bile.”
Devoto:
“Qual a vantagem da companhia santa?”
Mestre: “Ela leva à ânsia de Deus, ao amor de Deus.
Nada se consegue na vida espiritual sem ânsia.
Vivendo-se constantemente na companhia de homens santos, a alma torna-se inquieta por Deus.
Essa ânsia é como
aquela sensação experimentada pela mente de um homem que tem um doente na família.
Sua mente está em
desassossego constante, pensando como a pessoa vai ser curada.
Sri Ramakrishna
O Evangelho de Sri Ramakrishna