"Do que falaremos, de quais crimes? O comunismo cometeu inúmeros: inicialmente, crimes contra o espírito, mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucescu destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens, de mulheres, de crianças?

Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenômeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por meios diversos — fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome — indigência provocada e/ou não socorrida; deportação — a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabaIhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de "guerra civil" é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.

Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:

— URSS, 20 milhões de mortos,

— China, 65 milhões de mortos,

— Vietnā, 1 milhão de mortos,

— Coréia do Norte, 2 milhões de mortos,

— Camboja, 2 milhões de mortos,

— Leste Europeu, 1 milhão de mortos,

— América Latina, 150.000 mortos,

— África, 1,7 milhão de mortos,

— Afeganistão, 1,5 milhão de mortos,

— Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder, uma dezena de milhões de mortos.

O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos.

Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. E incontestável que, em valor relativo, o "troféu" vai para o Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz — a fome, a tortura — aproximadamente um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto à Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, porém perfeitamente refletido, lógico, político."

Stéphane Courtois

Reply to this note

Please Login to reply.

Discussion

No replies yet.