Para alcançar a liberdade, devemos transcender os limites do nosso universo. O perfeito equilíbrio, ou o que os cristãos chamam a paz, que se encontra além de todo entendimento, não pode ser conquistado neste mundo, nem no céu nem em lugar algum onde nossa mente possa pensar, os sentidos perceber e a
imaginação conceber.
Nenhum destes lugares pode nos dar a liberdade, porque todos eles estariam dentro de nosso universo e este está limitado pelo tempo, espaço e causação. Podem existir lugares que sejam
mais etéreos do que nossa terra, onde os prazeres sejam mais intensos, porém mesmo esses lugares estarão dentro de nosso universo, e portanto, sujeitos à lei; por conseguinte, devemos ir mais além, e a verdadeira religião começa onde termina o nosso universo.
As rápidas alegrias e sofrimentos findam onde a realidade começa. Enquanto não abandonarmos a sêde de viver, a atração pela existência transitória e condicionada, não teremos nem sequer a esperança de vislumbrar essa infinita liberdade que existe além
do limitado.
É lógico que não existe mais do que uma só maneira de obter esta liberdade (uma das mais nobres aspirações da humanidade) : o desprezo desta pequena vida, deste pequeno universo, desta terra, do céu, do corpo, da mente e de tudo o que está limitado e condicionado. Se renunciarmos o nosso apego por este pequeno universo dos sentidos e da mente, seremos imediatamente livres.
É o único modo de se livrar dos laços e ir além das limitações da lei e da causação.
Todavia, é sumamente difícil deixarmos de nos aferrar a este universo; muito poucos o conseguem. Nossos livros mencionam um dos modos de obtê-lo.
Um é chamado nei, neti (isto não, isto não), e o outro se chama
iti (isto); o primeiro é negativo e o segundo positivo. A maneira negativa é a mais difícil e só possível para homens de mentes elevadas e poderosa vontade; desses que se põem de pé e dizem: "Não, não aceito isto", e a mente e o corpo obedecem sua vontade, e surgem vencedores da prova.
A maioria da humanidade escolhe o modo positivo, o caminho do mundo, usando de todas as limitações para romper essas mesmas limitações. Esta é também uma maneira de renunciar; só que age de maneira lenta e gradual, conhecendo as coisas, gozando delas e obtendo. desta maneira. experiência, conhecendo a natureza das coisas até que a mente termina por abandoná-las.
O primeiro modo de se desligar é mediante o raciocínio; o segundo, pela experiência. O primeiro é a senda da jnana-yoga e se caracteriza pela negativa de realizar qualquer obra; o segundo é, a karma-yoqa, aquela que age sem cessar. Todos devem trabalhar no universo. Só aqueles que estão satisfeitos com o Ser, cujas
mentes nunca saem fora do Ser, para quem o Ser é tudo em todos, não trabalham.
Os demais devem trabalhar.
Uma corrente que flui por seu impulso próprio cai numa cova e forma um redemoinho, e depois de girar algum tempo volta a seguir seu curso. A vida humana se assemelha a esta corrente.
Penetra no redemoinho, gira neste mundo de espaço, tempo e causação exclamando: "meu pai, meu irmão, meu nome, minha fama, etc.", e por fim sai dali e readquire a liberdade original.
Conhecendo-a ou não, sejamos ou não conscientes dela, todos trabalhamos para sair do sono do mundo. A experiência do homem é para torná-lo capaz de sair deste torvelinho.
O Que é Karma-Yogal ? É o conhecimento do segredo da ação. Todo universo trabalha. Para que? Para sua elevação, para sua liberdade. Desde o átomo até o mais elevado dos seres, trabalha para alcançar a liberdade de mente, do corpo e do espírito. Todas as coisas pugnam continuamente por obter a liberdade e fugir da escravidão.
O sol, a lua, a terra, os planetas, todos trabalham para se libertarem das limitações. As forças centrífugas e centrípetas da natureza caracterizam o nosso universo. Em vez de sofrermos para
chegar a conhecer as coisas como elas são, aprendemos de Karma-Yoga o segredo da ação, o método de trabalhar, a maneira de agir.
Uma soma enorme de energia pode ser gasta em vão, se não soubermos como utilizá-la. Karma-Yoga transforma o trabalho em ciência, e com seu auxílio aprenderemos a utilizar melhor as forças deste mundo.
A ação é inevitável, e assim deve ser; porém devemos atuar com o mais elevado propósito.
Karma-Yoga nos ensina que este mundo possui uma existência efêmera, passageira, e que a liberdade não se encontra aqui, porém mais além. Para poder escapar das ligaduras do mundo, devemos viver com cautela.
Podem existir pessoas excepcionais, como as que acabo de citar, capazes de se desligarem do mundo, como uma cobra abandona sua pele e separada dela a contempla. Sem dúvida alguma existem
esses seres excepcionais, porém o resto da humanidade tem que passar lentamente pelo mundo da ação; karma yoga ensina o processo e o método de realizá-lo com vantagem.
Swami Vivekananda
do livro Karma Yoga - Capítulo 7 - Liberdade
Calcutá - 1896 