A lingua muda. Mas o corpus classico é uma ancora que fixou historicamente e define a linguagem.

Com adaptacoes de ortografia e ensinando-se alguns arcaismos, le-se Shakespere no original. Mas não basta retranscrever "Sir Gawain and The Green Knight" ou "Beowoulf" pra um falante de ingles moderno. A gramatica é muito diferente, e até o vocabulario mais basico mudou. Por isso, Shakespere é "English", "The Green Knight" é Middle English, e "Beowulf" é Old English (ou algo assim).

Ainda podemos ler Camoes apenas com adaptacoes de ortografia e aceitando varias escolhas e variacoes antiquadas de preposicoes e semantica que nao assustam muito se bem anotadas. Mas galego-portugues medieval tem esse nome diferente porque precisamos de mais mudancas estruturais em cada frase (apesar de estar bem mais perto de nos do que Beowulf do ingles moderno). E Machado é ainda trivial de ler, bem como Dickens ou Twain prum americano hoje.

Não tem como esconder isso ou passar pano. Se não basta atualizar a ortografia pra ler machado, entao a lingua nao eh a mesma. E as academias deviam se preocupar em manter a lingua ancorada nos textos classicos, pelo menos admitir variacoes modernas como variacoes da norma, variacoes que vem e vao enquanto a norma permanece.

Ja comentei aqui uma edicao didatica dos lusiadas. O anotador é um portugues de 1900. Achei muito interessante que algumas palavras dificeis que ele sente necessidade de explicar, pra nos são triviais e de uso corrente aqui no BR s. XXI. Algumas palavras camonianas mantemos igualzinho, mas eles perderam.

Quando nao for possivel mais ler Camoes nem transcrevendo e anotando, não falaremos mais portugues por definição. Falaremos outra lingua derivada que merecerá outro nome.

TV/radio etc. deveria *frear* a evolução da lingua. Pois temos pessoas que *estudaram diccao e fonetica* falando claramente com acento neutro na lingua padrao dando noticias todo dia. E discursos formais que antes só eram ouvidos pela assistencia imediata hj sao gravados e servem como referencia da lingua (churchil, e.g.)

Se não esta freiando, é pq escolas não cumprem com a obrigação de não dar diploma de colegial pra quem não consegue ler o corpo classico de literatura e se conectar com a alta-cultura da civilizacao. é pra isso que serve o 2o grau (não 4a serie, claro, 4a serie é pra ler, escrever, 4 operacoes, etc.)

mas cai-se no tecnicalismo (Thomas Huxley) e criou se um ensino medio só 'profissional' ou só 'vestibuleiro', e ainda ruim ate pra isso.

Parte da diferenca é que eu e o Agente estamos sendo idealistas, o que devia ser. Vc esta sendo pragmatico. Mas mesmo no pragmatismo, ainda se deveria nao perder de vista o ideal.

PS: quer irritar um portugues? Faça uma apresentação formal, e fale "A gente vai fazer" ao invés de "nós faremos". "A gente" irrita eles. com alguma razao.

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Discussion

Não tem como nenhum de nós prever exatamente que caminho a língua portuguesa e outras línguas irão tomar, pois é como tentar prever a ação humana, é altamente subjetivo e depende muito das movimentações sociais, políticas e tecnológicas.

Mas, dito isso, e considerando que a tendência geral vista hoje é a morte de várias línguas minoritárias e a consolidação mundial do inglês, PARECE ser o caso de que de forma ou de outra o mundo está sendo forçado a usar o inglês, mesmo que com isso a própria língua materna morra.

Ou seja, não há isso de manter o cerne da língua, ainda mais pelo fato de nenhum indivíduo pontual escolher o caminho que a sociedade como um todo vai trilhar (a não ser que seja um ditador), principalmente ao querer manter a lingua no Brasil, onde a sociedade não tem leitura, senso de tradição e muito menos de passado...

Mas a mudança também não é de todo ruim. Já que o próprio inglês já não se compara com o inglês anterior à influência francesa, e precisou disso, para ampliar o seu vocabulário, sua visão de mundo e capacidade tecnológica.

Da mesma forma, um português hoje crê que fala a 'língua original', mas não nota que original é só a estrutura passada que deu origem às variantes, ou o latim vulgar, ou o proto indo-europeu (que deu origem a quase todas as línguas européias), e neste último, seria muito mais seletivo falar uma lingua européia moderna ao invés de outra.

Você, por exemplo, crê que riqueza linguística é preservar o passado, mas para muitos, hoje, riqueza linguística é ter uma língua que traga mais comunicação, mais retorno financeiro, mais facilidade de aprenduzado e mais aplicabilidade (como ocorre na tecnologia e programação)... E isso é bem central, já que muita gente mal tem condições financeiras para assegurar o próprio futuro.

As linguas minusculas estao morrendo mesmo. Conheci um frances que aprendeu a falar só alsaciano. Aos 5 anos, preocupados com o futuro, até porque alsaciano nem sequer era escrito e escola era em frances, os pais passaram a falar frances em casa, de um dia pro outro. Qdo ele entrou na escola, já sabia o frances basico. Assim, o alsaciano esta morrendo, porque deixou de ser util. É um caso talvez extremo, uma lingua sem literatura de uma região pequena.

No fundo, os prox 2 seculos serao uma competicao demografica "do ultimo que apaga a luz". Conheco criancas que aprenderam lituano por razoes familiares. Bom exercicio mental, são 54 tabelas de declinação, mas é uma lingua de um povo de 3M habitantes com fertilidade de 1.3 filhos/mulher, postado entre paises maiores. Sera que o pais ainda existira qdo elas forem velhas? Sera que a lingua sera reduzida a velhinhas em aldeias?

Mas em linguas maiores, existem monoglotas demais para a lingua morrer. Arranham ingles, mas não o suficiente pra viajar, ler ou ouvir mídia confortavelmente.

mas sobre o corpo literario:

não é preservar o passado que já passou, é se conectar com ele. Tradição é isso, educacao baseada em grandes livros, virtudes, etc, e um povo formado por uma mitologia comum. Ninguem precisa de escola pra entender letra de rap, escola é pra entender o corpo de literatura da civilização, pra elevar a mente. Alguns (japoneses, me disseram) incluem no curriculo alguns grandes livros de varios outros paises traduzidos, válido. Mas há suficientes autores portugueses pra montar boa parte do curriculo, pelo menos.

Shakespeare define o ingles com mecanismos muito diretos. Os dicionarios do Samuel Johnson e o de Oxford (veja filme do mel gibson) se fundamentavam em citacoes. Se Shakespeare usou tal palavra com tal significado, vale. Pode ser ate marcado como arcaico, se o significado caiu, mas vale. Porque o linguista sabe que os leitores do dicionario lerao Shakespeare, e as palavras do autor tem que ser validas por definicao. Entao um escritor em duvida pega o dicionario e aprende a usar a palavra com aquele sentido, ou um poeta copia direto do Shakespeare, e isso se autoperpetua e fixa a linguagem. O mesmo pra biblia KJV/ingles, pra camoes/PT, pra Dom Quixote/Espanhol, etc. Os melhores autores do sec XIX definem o ingles do sec XIX, e assim vai. Quando isso não for mais verdade nem retranscrevendo e corrigindo detalhes de arcaismos, teremos outra lingua. "Os lusiadas" criaram ate a mitologia nacional portuguesa, o que um portugues comum ouviu da historia deles ate 1550 é basicamente as narrativas que camoes escolheu - Ines, Vasco, D. Diniz, etc.. - que moldaram a imaginacao e depois o curriculo escolar deles.

Se desconectar as linguas modernas do seu corpo literario, elas se tornam *menos* uteis para os bem-educados. Não importa o que a maioria de semi-analfabetos faça, sem uma elite inteligente (culturalmente, não tecnologicamente), se fica a deriva, como o Bostil atual. Pra que uma lingua que só permite ler o ganhador da feira literaria de Parati desde 2020, e não permite ler Machado nem Camoes?

O portugues e as outras linguas tem esse objetivo. "mais comunicação, mais retorno financeiro, mais facilidade de aprenduzado e mais aplicabilidade (como ocorre na tecnologia e programação)." é outro objetivo, mais pragmatico. A lingua franca dominante cumpre esse objetivo, com limitacoes, alguma dificuldade notavel como a fonetica inglesa ou a gramatica fina do frances ou latim.

Ligando os pontos:

*É preciso perseguir os 2 objetivos, o cultural e o pragmatico. E precisar aprender uma segunda lingua com o segundo objetivo pragmatico/profissional é normal.* Seja o ingles, ou outra lingua franca futura. Ou uma lingua artificial que cresca ate ser util o suficiente, ok, mas ja foi tentado com o esperanto, interlingua, etc...

Brasileiro nao esta acostumado com poliglota... mas ate o sec XVIII todo cientista precisava ler latim, como ingles hj. Indianos aprendem Hindi e Ingles alem da lingua materna, e se forem estudar em outro estado, uma quarta lingua. Na Europa, monoglotas se limitam a viver nos seus paises, algumas centenas de km pra cá e pra lá. Na idade media, as linguas modernas ainda não eram padronizadas o suficiente, a grande maioria entre os que estudavam se alfabetizava em latim, depois, para uma minoria com mais tempo pra estudar, no vernacular.

Alias, a idade média é um exemplo bom do que acontece qdo as linguas são apenas dialetos regionais em mutacao constante sem um corpo literario relevante com abrangencia temporal e espacial: elas se tornam inuteis pra atividades serias do dia-a-dia, tendem a ser só faladas, e a alfabetizacao prioritária é na lingua franca, mesmo que já morta. Mesmo quando se escreve vernacular, pra musicas, contos ou cartas menos formais, a compreensao do texto é bem mais efemera no tempo e limitada no espaço. Ate porque, sem um corpo literario comum, não ha como padronizar a linguagem o suficiente pra textos precisos em contextos e disciplinas complexas. Nao lembro quem disse "dialeto não faz ciência". O mesmo vale pros alemães. Alguns dos dialetos que falam em casa não são sequer escritos e a vida séria corre em High German.

Um colegial pode ter mais peso para um lado ou pro outro, mais exatas ou mais humanas, etc. Mas educacao puramente profissional é um erro moderno, proposital, pra formar engrenagens dóceis do sistema, desconectados de qq tradição, seguindo os ventos da narrativa du jour.

outro exemplo: O Mao simplificou os caracteres chineses. Ficou mais simples pra aprender, escrever, e mais facil pra tipografia, varias vantagens. Mas uma das razoes era dificultar a leitura de qq coisa pré-comunismo. Possivel, mas com esforço extra. E o PCC controlava o que era reimpresso na forma nova.