A Mercadoria da Ilusão: Privacidade Simbólica e Valor no Capitalismo Digital
Chama atenção o fato de as corretoras não utilizarem o modo de privacidade nas criptomoedas Zcash, Dash e em qualquer outra que possua essa função de forma opcional. Se o usuário tenta acionar o modo “privado” nessas moedas dentro das corretoras, simplesmente não consegue.

Nesse sentido, a história recente das criptomoedas revela um fenômeno curioso: as moedas que mais crescem em valor não são as que melhor cumprem o ideal original de soberania e anonimato.
Pelo contrário, são justamente as que imitam a aparência da privacidade sem ameaçar o olhar regulatório.
Dash e Zcash, entre outras, subiram vertiginosamente, enquanto Monero — a única moeda de privacidade real — manteve sua trajetória discreta, silenciosa e coerente.
Essa inversão de valor — em que o simulacro supera o original — não é anômala: é o padrão do capitalismo digital especulativo.
Num ambiente em que tudo se transforma em narrativa, o que vale não é o que é verdadeiro, mas o que parece ser.
A privacidade, no contexto tecnológico contemporâneo, já não é mais um direito, mas uma experiência vendável.
O usuário não busca a invisibilidade — busca a sensação de invisibilidade.
Da mesma forma, o mercado não quer o anonimato total, mas um anonimato administrável: suficiente para criar a ilusão de liberdade, mas não tanto que escape ao controle estatal e corporativo.
Zcash e Dash ocupam exatamente esse espaço simbólico.
São tecnologias que preservam a estética da autonomia — um verniz de rebeldia calculada — enquanto mantêm estruturas compatíveis com a vigilância e a conformidade regulatória.
Para o investidor, cumprem o papel psicológico de “proteger” sua liberdade;
para o regulador, são uma forma de controle travestida de escolha.
O comportamento coletivo do mercado cripto reflete uma dinâmica teatral: a multidão atua como se acreditasse na narrativa de soberania, enquanto o sistema financeiro observa e lucra com a encenação. Nessa peça, Monero representa o personagem incômodo — o único que não segue o roteiro — e, por isso, é isolado, censurado ou simplesmente ignorado.
Mas o público prefere o espetáculo previsível à verdade desconfortável. E, como em todo espetáculo, o que importa é a emoção que provoca, não o conteúdo que carrega. Zcash e Dash são personagens convenientes nesse drama: suas valorizações reafirmam o mito de que a privacidade ainda é possível — desde que devidamente autorizada.
Jean Baudrillard talvez dissesse que as privacy coins tornaram-se simulacros da resistência: cópias de uma ideia original que já não existe no mundo social.
O que se vende agora é o signo da privacidade, não sua substância. E o mercado recompensa justamente esse signo, porque ele se encaixa nas exigências emocionais do investidor e nas fronteiras institucionais do sistema.
A privacidade, assim, foi convertida em mercadoria simbólica — algo que pode ser possuído, exibido e precificado, sem que precise ser real.
Monero permanece à margem desse teatro porque não pode ser assimilado.
Sua estrutura é incompatível com o olhar panóptico que domina as finanças digitais.
Ela não promete transparência, não busca aprovação e não oferece “narrativa”.
É um artefato de coerência em um ambiente de conveniência.
Por isso, seu valor não se expressa em explosões especulativas, mas em sobrevivência silenciosa.
Monero não precisa de marketing: basta que funcione — e funcione fora do alcance do poder.
No fim, todos ganham algo nessa arquitetura da aparência, com narrativas de privacidade parcial e a rejeição da privacidade real, ao negar a importância da Monero (XMR):
O investidor sente-se livre.
O regulador sente-se seguro.
O mercado sente-se dinâmico.
O único perdedor é o conceito de liberdade, substituído por sua imitação vendável.
Mas isso, paradoxalmente, é o que sustenta o ciclo econômico: o consumo contínuo de símbolos, não de realidades.
A privacidade deixou de ser uma prática — tornou-se uma marca.
E, enquanto isso for suficiente para a maioria, Zcash, Dash e qualquer outra narrativa de privacidade parcial continuarão a ganhar preço, mesmo sem valor real de liberdade.
É importante observar que a tecnologia da Zcash é muito boa — está lá, plenamente funcional.
Mas não é usada pelas corretoras. Já o Dash utiliza um misturador opcional, que ajuda a ofuscar as transações. Ambas funcionam, mas apenas se houver interesse das corretoras; caso contrário, todas as transações são transparentes — e, com isso, sem privacidade.
Na prática, Monero tem a privacidade como padrão estrutural: não há como escolher deixar de usá-la.
Não é uma privacidade apenas nominal, mas uma ferramenta para quem deseja garantias reais.
As corretoras não podem decidir — se operam com Monero, a privacidade é inerente ao protocolo.
Algo que, ao que parece, não interessa a quem busca conforto e a mera sensação de privacidade.