Eu avistava o céu e percorria o espaço entre nuvens brancas que tinham forma aconchegante e aveludada. Para alguns isso parece um sonho, mas para mim era a realidade que me atravessava. Eu não tinha escolha: estar nas alturas era aquilo que mantinha em fluxo, ativa, minha pulsão de vida.

Quando o vento soprava no sentido oposto ao que eu voava, ele me trazia o frescor necessário para continuar. Sua força movia todas as minhas estruturas e me ajudava a seguir renovado. Quando soprava na mesma direção, eu seguia com fluidez e sentia companhia.

Numa dessas viagens, avistei um ninho com pequenos pássaros, sem nenhum outro que os cuidasse por perto. Eles estavam famintos e tomei a decisão quase de imediato ao me aproximar deles.

Fui em busca de alimento imaginando que quando voltasse eles estariam sendo cuidados. Ao retornar vi que seguiam do mesmo jeito.

Passei a alimentá-los todos os dias. Minhas rotas, até então espontâneas, começaram a ter um destino bem claro. Apesar das mudanças, eu me sentia muito feliz com aquela nova vida.

Até que um dia um dos pássaros caiu do ninho e se perdeu. Fiquei confuso pensando no que poderia ter feito de errado e como poderia ter agido para evitar aquilo. Mas logo fui interrompido por intermináveis sons daqueles que ainda estavam no ninho.

Recobrei minha atenção para o fato de que havia um pássaro caído e fui atrás dele. Durante o percurso, muitos medos me visitaram, mas, a todo o tempo, algo me trazia de volta à realidade. O vento, as folhas caídas, as borboletas e formigas.

Foi então que o vi. Escondido, quietinho embaixo de uma folha. Estava com medo e machucado, mas assim que me viu veio ao meu encontro.

Seguimos de volta ao ninho e eu soube: eles estão prontos para voar!

O conduzi até sua casa e percebi que todos estavam ansiosos para explorar o mundo e ir além daquela pequena contenção. Eu não fazia ideia de como poderia ensiná-los a voar.

Comecei a observá-los. Examinei com cuidado a estrutura física de cada um. Todos tinham corpos cobertos por penas, todos tinham bico - todos tinham asas em perfeito estado. Até mesmo aquele que caíra já tinha se recuperado. Fiquei atento às suas asas. Vi como as levantavam e, por si mesmos, percebiam seus efeitos. Observei cada um deles por alguns dias, sem fazer ou dizer nada.

Quando chegava o momento da minha partida, eles ficavam me olhando, atentos e sempre que eu voltava me recebiam ansiosos. Eu sabia que estavam prontos para voar, mas eu ainda estava envolto por uma nuvem de insegurança por não saber ensinar.

Um dia, quase chegando ao ninho, fui atingido por algo que até hoje não sei bem o que era. Apenas senti que era pontiagudo. Assim que me acertou não pude mais seguir - caí sem conseguir me segurar em nada. Fiquei machucado e doía muito quando tentava me mover.

Fiquei preocupado, pensando no que os passarinhos fariam sem mim. Eu não tinha levado comida, iam se sentir abandonados, podiam ser atacados por pássaros maiores. Naquele momento em que eu via apenas o chão, nada me trazia de volta ao que eu estava vivendo. Eu só conseguia pensar nos pequenos.

Até que avistei um bicho grande que não identifiquei bem qual era. Consegui me arrastar até uma pedra que se misturava com algumas folhas e me escondi. Precisei lidar com a dor, eu não podia mais fugir. Eu estava, inevitavelmente, ali. Preso, sem conseguir me mover direito, me sentindo ameaçado a todo momento. Alguns animais se aproximavam, chegavam bem perto, até, mas, por sorte, nunca me viam.

De repente, o vento soprou tão forte que moveu as folhas onde eu me escondia e eu vi, lá do alto, um bando chegar. O sol batia atrás deles e eu só conseguia ver pássaros pretos se aproximando. Temi que fosse o meu fim. E eu não estava bem, tranquilo. Eu não partiria com serenidade.

Fechei meus olhos, com a esperança de me acalmar, e senti um toque, e outro, e outro, e mais um. Eram toques sutis, então não resisti e abri meus olhos. À minha volta estavam os passarinhos, criando, com seus corpos, um novo e diferente ninho.

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mais um conto de 2020, escrito livremente.

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