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"Mesmo em sistemas políticos que se apresentam como democráticos, indivíduos e grupos que expressam opiniões dissidentes são muitas vezes retratados como contra o interesse da comunidade – e até mesmo como traidores. No entanto, na realidade são os conformistas que estão, por motivações muitas vezes egoístas, agindo contra o interesse da comunidade ao permanecerem em silêncio, mesmo que a comunidade esteja prestes a tomar uma decisão ruim de acordo com seus próprios padrões (ou aqueles aceitos pela maioria). A autocensura é uma estratégia individualmente racional quando os custos de desvio são muito altos – ou seja, quando os dissidentes enfrentam severas sanções sociais ou até mesmo legais. É fácil de ver como uma estratégia individualmente racional pode, nesses casos, levar a um desfecho coletivamente irracional. Se as opiniões que não são expressas estão corretas ou apontam para problemas graves, o dano causado é mais óbvio. Mas mesmo que estejam apenas parcialmente certos ou claramente falsos e enganosos, os membros da maioria perdem a oportunidade de desenvolverem um quadro mais amplo e chegarem a uma melhor compreensão e justificativa de suas próprias opiniões, defendendo-as contra os outros em um debate público aberto. Isso, é claro, resume em essência o famoso argumento de John Stuart Mill em favor da liberdade de expressão, que repousa em três reivindicações: que podemos ser falsos, que mesmo opiniões falsas podem conter verdades parciais, e que há um perigo constante de se decair no dogmatismo (Mill, 1989, cap. 2). Portanto, o argumento de Mill pode também ser reformulado – e radicalizado – para a importância de uma esfera pública aberta, vibrante e controversa. O fenômeno pelo qual grupos, especialmente depois de terem assegurado poder institucionalizado, resistem a esse tipo de questionamento, agarrando-se às suas formas estabelecidas de pensar e agir e submetendo, assim, os 'primeiros a se mexerem', os 'denunciantes' e outros dissidentes a custos especialmente altos, pode ser entendido como uma forma de conservadorismo coletivo. As instituições políticas e da sociedade civil têm de encontrar uma escapatória desse beco sem saída, criando contextos institucionais e esferas públicas alternativas que favoreçam a expressão de opiniões dissidentes. Basear-se em supostas 'opiniões de

especialistas' e no que a visão da maioria parece exigir pode levar à supressão de controvérsias potencialmente produtivas e, assim, tornar impossível considerar, ou mesmo perceber, enquadramentos alternativos do problema e de potenciais soluções. Nesses casos, mesmo uma voz dissidente já pode fazer uma enorme diferença e ter uma espécie de efeito de abertura de mundo, com isso potencialmente transformando os termos do debate político. Claro, nem toda forma de dissidência e desvio é boa ou leva a controvérsias produtivas ou a processos de aprendizagem. Mas, na maioria dos casos, aqueles no poder parecem estar numa posição particularmente ruim (politicamente, mas também em termos epistêmicos) para avaliar a razoabilidade das opiniões dissidentes (Frederick Schauer chama isso de 'argumento da incompetência governamental') (Schauer, 1982, p. 86)."

-- ROBIN CELIKATES

https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/223351

Leitura interessante, neste trecho! 🤝

Eu concordo bastante com a ideia de análise a partir de uma dissidência, podendo ser necessária ou apenas detratores. A propagação da usabilidade do #Bitcoin e nostr por exemplo, válida parte dessa semântica acima.

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Discussion

segue lendo que ele chega lá, só faltou falar "NOSTR" com todas as letras.