A vida de Santo Antão
7.4 - A verdadeira Sabedoria
Tinha também um grau muito alto de sabedoria prática. O admirável era
que, ainda que não tivesse educação formal [73], possuía no entanto
engenho e compreensão despertos. Um exemplo: uma vez chegaram a ele
dois filósofos gregos, pensando que podiam divertir-se com Antão. Quando ele, que nessa ocasião vivia na Montanha Exterior, catalogou os homens por sua aparência, dirigiu-se a eles e lhes disse por meio de um intérprete: "Por que, filósofos, se deram tanto trabalho vindo a um homem louco?" Quando eles lhe contestaram que não era louco, mas muito sábio, ele lhes disse: "Se vieram a um louco, seu incômodo não tem sentido; mas se pensam que sou sábio, então façam-se o que sou, porque se deve imitar o bom. Em verdade, se eu tivesse ido a vocês, tê-los-ia imitado; ao invés, agora que vieram a mim, convertam-se no que sou: eu sou cristão". Eles se foram, admirados; viram que até os demônios temiam a Antão.
73. Também outros da mesma classe foram a seu encontro na Montanha
Exterior e pensaram que podiam zombar dele porque não tinha cultura.
Antão lhes disse: "Bem, que dizem vocês: que é primeiro, o sentido ou a
letra? E qual é a origem do outro: o sentido da letra ou a letra do sentido?"
Quando eles expressaram que o sentido é primeiro e origem da letra, Antão
disse: "Por isso, quem tem mente sã não necessita das letras" [74]. Isto os
assombrou e a todos os circunstantes. Foram-se admirados de ver tal
sabedoria num homem iletrado, que não tinha as maneiras grosseiras de
quem viveu e envelheceu na montanha, mas era um homem simpático e
cortês. Seu falar era sazonado com a sabedoria divina (cf Cl 4,6), de modo
que ninguém lhe tinha má vontade, mas todos se alegravam de haver ido em sua procura.