Upakosala residiu como aluno na casa de Satyakama por doze anos. Embora o mestre permitisse que outros discípulos voltassem às suas casas depois de lhes ter sido adequadamente ensinado o caminho da verdade, Upakosala não teve permissão para partir.
A esposa de Satyakama suplicou a seu marido que acabasse de instruí-lo para que ele pudesse ir para casa, como os outros, porém Satyakama não somente se recusou a fazê-lo como partiu para uma viagem.
Com isso, Upakosala ficou tão triste e doente no coração que não conseguia nem comer.
A esposa do mestre servia-lhe comida, e tratava-o em tudo com a mais meiga afeição, porém sem qualquer resultado.
Finalmente o rapaz lamentou-se para ela:
"Ó mãe, meu coração está ainda tão impuro; estou infeliz demais para comer!"
Então uma voz de dentro do fogo que ele estava vigiando disse:
"Esta vida é Brahman.
O céu é Brahman.
A bem-aventurança é Brahman.
Conhece Brahman!"
"Eu sei que a vida é Brahman", replicou Upakosala. "Porém, que o céu seja Brahman, ou que a bem-aventurança seja Brahman, isso eu não sei."
Mais uma vez surgiu a voz de dentro do fogo, desta vez explicando que o céu significava o lótus do coração, onde Brahman habita, e que a bem-aventurança significava a bem-aventurança de Brahman.
"Ambos", disse a voz, "se referem a Brahman"; e, continuando, a voz ensinou a Upakosala o seguinte:"A terra, a comida, o fogo, o Sol - tudo isso que veneras são formas de Brahman.
Aquele que é visto no Sol - aquele sou eu.
Aquele que mora no céu e faz do relâmpago a sua casa - aquele também sou eu.
Conhece bem a verdadeira natureza do mundo para que ela nunca possa te causar dano."
Conseqüentemente, o fogo, que tinha sido apenas um fogo terrestre com o qual se preparavam sacrifícios, assumiu um novo aspecto, e tornou-se o próprio Senhor.
A Terra transformou-se; a vida transformou-se; o Sol, a Lua, as estrelas, o relâmpago tudo estava transformado e divinizado.
Foi assim que a verdadeira natureza de todas as coisas foi revelada a Upakosala.
No tempo devido, Satyakama voltou a casa. Quando viu Upakosala, disse:
"Meu filho, a tua face brilha como a de um conhecedor de Brahman. Quem te instruiu?"
"Seres diferentes do homem", replicou Upakosala.
Satyakama então disse:
"Meu filho, o que aprendeste é verdade. Verdadeiro também é o que te ensino agora.
Contempla aquele que sabe que nenhum mal se fixará, do mesmo modo como gotas de água não se fixam na folha do lótus:"Aquele que reluz nas profundezas dos teus olhos - é Brahman;
ele é o teu próprio Eu.
Ele é O Belo, O Luminoso.
Em todos os mundos, para todo o sempre, ele brilha!"
Que a tranqüilidade desça sobre os meus membros,
A minha fala, o meu alento, os meus olhos, os meus ouvidos;
Que todos os meus sentidos se tomem claros e fortes.
Que Brahman se mostre a mim.
Que eu jamais negue Brahman, nem Brahman a mim.
Eu com ele e ele comigo - possamos permanecer sempre juntos.
Que seja revelada a mim,
Que sou devotado a Brahman,
A sagrada verdade dos Upanishads.
OM. .. Paz - paz - paz.
Chandogya Upanishad
Tradução Swami Prabhavananda
