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História, teologia e espiritualidade das Antífonas do Ó

Nossa preparação de Advento para a vinda de Cristo, no Natal, é um modelo de como podemos nos preparar para a sua segunda vinda; e, com as Antífonas do Ó na liturgia, a Igreja nos oferece uma ajuda nessa preparação.

Por Matthew Hazell

Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

Parte II

A teologia das Antífonas do Ó

As Antífonas do Ó são um magnífico mosaico de passagens bíblicas, que ligam a Lei, os profetas e os escritos do Antigo Testamento ao seu cumprimento no Novo [veja-se o Apêndice ao final, com as várias alusões bíblicas presentes nas antífonas]. Para a etapa final de nossa preparação de Advento, todo dia a liturgia nos oferece um ponto de partida para meditar sobre o Verbo Encarnado, o Filho de Deus que incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est, “se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem” (Credo niceno) — ajudando-nos assim a concentrarmo-nos no verdadeiro significado dos tempos do Advento e do Natal.

A partir do nosso ponto de vista na história, as antífonas nos direcionam de volta para o feliz evento da Encarnação, a primeira vinda de Cristo, que torna possíveis os eventos salvíficos da Semana Santa e da Páscoa. No entanto, elas também nos apontam para a segunda vinda de Nosso Senhor; ajudam-nos a estar sempre vigilantes (cf. Lc 21, 36). Nossa preparação de Advento para a vinda de Cristo, no Natal, é um modelo de como podemos nos preparar para a sua segunda vinda; e, com as Antífonas do Ó na liturgia, a Igreja nos oferece uma ajuda nessa preparação — ajuda singela, mas vital ao mesmo tempo.

Para ilustrar isso, olhemos para três antífonas de forma mais detalhada: O Sapientia, O Oriens e O Emmanuel, [dos dias 17, 21 e 23, respectivamente].

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“A Santíssima Trindade”, por Antonio de Pereda.

"O Sapiéntia, quæ ex ore Altíssimi prodiísti, attíngens a fine usque ad finem, fórtiter suavitérque dispónens ómnia: veni ad docéndum nos viam prudéntiæ. — Ó Sabedoria, que, saindo da boca do Altíssimo, atinges o universo de uma extremidade a outra e dispões, ao mesmo tempo com força e suavidade, todas as coisas: vem ensinar-nos o caminho da prudência."

Essa antífona nos conduz à literatura sapiencial do Antigo Testamento, partes da qual são citadas quase palavra por palavra na primeira metade da antífona: “Eu saí da boca do Altíssimo, primogênita antes de todas as criaturas” (Eclo 24, 5); “[A sabedoria] estende-se poderosa desde uma extremidade à outra, e dispõe todas as coisas com suavidade [lt. suaviter]” (Sb 8, 1).

Algo que precisamos ter em mente com as Antífonas do Ó é que elas não só citam ou apontam-nos textos bíblicos específicos, mas, com efeito, conduzem-nos a temas bíblicos e teológicos. Para começar a entender as antífonas — e, de fato, a liturgia da Igreja em geral —, nós devemos entrar na Bíblia, tornar-nos cada vez mais familiarizados com os seus textos. Na antífona em análise, portanto — O Sapientia —, devemos olhar não só os versículos citados explicitamente, mas também as passagens implícitas nela, como Provérbios, cap. 8:

"O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde o princípio, antes que criasse coisa alguma. Desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes que a terra fosse criada [...]. Quando ele preparava os céus, eu estava presente; quando, por uma lei inviolável, encerrava os abismos dentro dos seus limites; quando firmava lá no alto a região etérea, e quando equilibrava as fontes das águas; quando circunscrevia ao mar o seu termo, e punha lei às águas, para que não passassem os seus limites; quando assentava os fundamentos da terra, eu estava com ele, como arquiteto; cada dia me deleitava, recreando-me continuamente diante dele, recreando-me sobre o globo da terra, e achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens (22-23.27-31)."

Essa personificação da sabedoria no Antigo Testamento nos prepara para a revelação da Trindade no Novo Testamento (cf. também Jó 28; Br 3–4; Eclo 1; 4, 11-19; 6, 18-31; 14–15; Sb 6–10). O Evangelho de João em particular identifica Jesus com a personificação da sabedoria divina. No Antigo Testamento, a sabedoria é “uma pura emanação da glória do Onipotente” (Sb 7, 25); Jesus possuía glória com o Pai antes da criação do mundo, e manifesta essa glória aos homens na terra (cf. Jo 1, 14; 17, 5.22.24). [Com a Encarnação] a Sabedoria [mesma] percorre as ruas, procurando as pessoas e clamando por elas (cf. Pr 1, 20-21; 8, 1-4; Sb 6, 17); Jesus sai à procura dos homens e faz-lhes publicamente o seu convite (cf. Jo 1, 43; 5, 14; 7, 37; 9, 35; Lc 19, 10). E, citando o Eclesiástico, [a antífona] O Sapientia nos diz que a sabedoria saiu da boca do Altíssimo (cf. Eclo 24, 5); João nos diz que não só Jesus estava no princípio “junto de Deus”, mas que Ele é “o Filho unigênito do Pai” (Jo 1, 1-2.14; cf. 1Jo 4, 2).

Esta primeira antífona nos mostra, portanto, o Creatórem cæli et térræ, visibílium ómnium et invisibílium, “Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis” (como diz o Credo niceno), e revela para nós a Sabedoria de Deus, que é o Cristo.

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Fotografia de Missa celebrada “ad orientem”.

"O Oriens, splendor lucis ætérnæ, et sol iustítiæ: veni, et illúmina sedentes in ténebris et umbra mortis. — Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e Sol de justiça; vem e ilumina os que jazem nas trevas e na sombra da morte."

Esta é a antífona do dia 21 de dezembro, que marca no hemisfério norte o solstício de inverno, dia mais curto do ano. É apropriado, portanto, que no dia em que a escuridão e as trevas atingem o seu cume no mundo natural, a liturgia chame a nossa atenção para a luz de Cristo, a aurora do Filho de Deus. De fato, na Missa, o povo de Deus, guiado pelo sacerdote, volta-se junto ad orientem, na direção do sol nascente, esperando com constância a segunda vinda de Cristo, na adoração, na súplica e no sacrifício. Essa é uma prática que remonta aos primeiros tempos da Igreja, e foi só a partir do Concílio Vaticano II que essa orientação foi interrompida pela prática de o sacerdote voltar-se para a assembleia (sem o mandato dos documentos do Concílio, vale acrescentar) [v].

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"Códice antigo, com as Antífonas do Ó"

Embora este poderoso simbolismo litúrgico esteja em urgente necessidade de resgate na Igreja contemporânea, os textos da liturgia, especialmente no Advento, orientam-nos espiritualmente para o Sol nascente, o Oriens, Jesus Cristo. Por exemplo, a Epístola para o 4.º Domingo do Advento no rito romano tradicional, tomada da Primeira Carta aos Coríntios (4, 5), diz o seguinte: “Pelo que não julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só porá às claras o que se acha escondido nas trevas, mas ainda descobrirá os desígnios dos corações” (cf. Hb 2, 3) [vi]. Esse tema da iluminação e da vinda do Filho de Deus na glória permeia o tempo do Advento. E, nesta antífona, as palavras sol iustítiæ indicam-nos parte do contexto bíblico para a vinda do Senhor: “Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, que traz a salvação sob as suas asas” (Ml 4, 2a [3, 20 na Vulgata]).

Vale a pena analisar esta frase no contexto mais amplo de Malaquias, que fala sobre “o dia” do Senhor, o dia em que Ele retornará, o dia em que tanto os bons quanto os maus serão julgados por Deus. Os maus, mesmo que agora prosperem (cf. Ml 3, 15), serão consumidos pelo Senhor, e para eles esse será um dia de destruição. Mas o “sol da justiça”, Jesus Cristo, virá e salvará aqueles que servem ao Senhor. O Advento não é só uma preparação para celebrar a primeira vinda de nosso Salvador ao mundo, mas [também] um tempo de preparação para a sua segunda vinda, quando sua luz porá a descoberto todas as nossas ações, estejamos prontos ou não [para isso] (cf. Jo 3, 16-21). E Nosso Senhor mesmo nos alertou sobre esse dia que está por vir:

"Velai, pois, sobre vós, para que não suceda que os vossos corações se tornem pesados com as demasias do comer e do beber, com os cuidados desta vida, e para que aquele dia vos não apanhe de improviso; porque ele virá como um laço sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra. Vigiai, pois, orando sem cessar, a fim de que vos torneis dignos de evitar todos estes males que devem suceder, e de aparecer com confiança diante do Filho do homem (Lc 21, 34-36)."

O ato de dirigirmo-nos a Cristo dizendo: O Oriens faz parte da ajuda e do estímulo constantes da liturgia para que orientemos as nossas vidas para Deus neste tempo de Advento e recebamos a sua graça, não só em preparação para celebrar sua primeira vinda no Natal, mas também a fim de estarmos prontos para a sua segunda vinda no fim dos tempos.

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“A Adoração dos Pastores”, por Guido Reni.

"O Emmánuel, Rex et légifer noster, exspectátio Géntium, et Salvátor eárum: veni ad salvándum nos, Dómine, Deus noster. — Ó Emanuel, nosso Rei e Legislador, esperança das nações e seu Salvador; vem salvar-nos, Senhor, nosso Deus."

O contexto bíblico para essa antífona é conhecido de todos: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porão o nome de Emanuel” (Mt 1, 23; cf. Is 7, 14). Emanuel significa “Deus está conosco”; portanto, é apropriado que esta antífona venha logo antes de celebrarmos o mistério da Encarnação — momento da história em que se realizou verdadeiramente o nome Emmanuel.

Além de ser uma profecia cumprida por Jesus, a citação de Isaías por Mateus (aliás, o único evangelista a citar a profecia) serve a outro propósito no contexto de seu Evangelho. Se formos até as últimas palavras de Cristo em Mt 28, 20, leremos: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Vemos assim que o nome Emmanuel envolve todo o Evangelho de Mateus, de uma ponta a outra. No início, a promessa é cumprida do modo mais maravilhoso possível através da Encarnação e do Natal de Nosso Senhor; e, no fim, esse cumprimento mostra-se eterno, em virtude de sua Morte, Ressurreição e Ascensão.

De fato, Jesus também nos diz, em Mt 18, 20: “Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no nome deles”. A presença do Senhor em sua Igreja, especialmente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, mostra que esta antífona tem um escopo muito mais amplo que o tempo do Advento. Nossa preparação para celebrar a primeira vinda do Senhor significa que a antífona tem um significado especial para o Advento, mas ela também nos leva ao presente: Deus está conosco agora, em sua Igreja e nos sacramentos, para que possamos ser salvos por Ele.

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