"Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante, já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: “Você faz isso por dinheiro ou por prazer?” Tão infinitamente repetível é essa fórmula, que ela deve revelar algum traço profundo e permanente do modo brasileiro de ver as coisas — um lugar-comum ou topos da nossa retórica diária.

Ora, todo lugar-comum é um recorte que enfatiza certos aspectos da realidade para momentaneamente dar a impressão de que os outros não existem. Logo, para compreendê-lo é preciso perguntar, antes de tudo, o que é que ele omite.

O que está omitido na pergunta acima é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica nem por prazer — ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando ela só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido nessa pergunta — e no modo brasileiro de ver as coisas — é aquilo que se chama vocação.

Vocação vem do verbo latino "voco", "vocare", que quer dizer “chamar”. Quem faz algo por vocação sente que é chamado a isso pela voz de uma entidade superior — Deus, a humanidade, a História, ou, como diria Viktor Frankl, o sentido da vida.

Considerações de lucro ou prazer ficam fora ou só entram como elementos subordinados, que por si não determinam decisões nem fundamentam avaliações.

(...)

A realização superior do homem na vocação é então substituída pela mera busca do emprego, visto apenas como meio de subsistência e sem nenhuma importância própria no que diz respeito ao conteúdo. A adaptação conformista a um emprego medíocre e sem futuro é considerado o máximo do realismo, a perfeição da maturidade humana. Tudo o mais é depreciado (e por isto mesmo hipervalorizado e ansiosamente desejado) como “diversão”. Assim, entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva (da qual o Carnaval é a amostra mais significativa), acumula-se na alma do brasileiro a inveja e uma surda revolta contra todos os que levem uma vida grande, brilhante e significativa, sobre os quais, mesmo quando são pobres, paira a suspeita de serem usurpadores e ladrões, pelo menos ladrões da sorte. Daí a famosa observação de Tom Jobim: “No Brasil, o sucesso é um insulto pessoal.” Sim, nesse meio não se compreende outra lealdade senão o companheirismo dos fracassados, em torno de uma mesa de bar, despejando cerveja na goela e maledicência no mundo. Este é um país de gente que está no caminho errado, fazendo o que não quer, buscando alívio em entrenenimentos pueris e desprezíveis, quando não francamente deprimentes.

Nossa ciência social, atada com cabresto maxista e cega às realidades psicológicas mais óbvias da nossa vida diária, jamais se deu conta da imensa tragédia vocacional brasileira que condena milhões de pessoas a viver presas como animaizinhos, entre a dor inevitável e o prazer impossível."

Olavo de Carvalho

Uma visceral análise da alma brasileira que o filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022) escreveu na revista "Bravo!" em fevereiro de 2000, e consta no livro "O Leão e os Ossos - O Que Sobrou do Imbecil".

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Discussion

Esse texto me deu ainda mais vontade de aprender violoncelo, o professor era demais.

Eu estudei violoncelo em aulas particulares e cheguei a estudar por um período no conservatório. Antes tinha estudado aulas particulares de violão, mas não se compara ao som maravilhoso do violoncelo vibrando junto ao tórax. É um som sensacional e uma experiência única. Eu estava evoluindo bem e próximo de entrar na orquestra jovem do conservatório, mas infelizmente sofri um acidente de moto e tive que passar vários meses em fisioterapia, perdi o semestre e até mesmo a data da de rematrícula no ano seguinte... Terminou que eu não mais voltei por diversos fatores, inclusive econômicos, e é algo que até hoje dói um pouco lembrar. Na época comprei um cello alemão 4/4 modelo estudante e com som muito bom. Vou vender porque está parado e tirando o jogo de cordas para trocar, é preciso fazer um pequeno ajuste na posição da alma, a crina do arco que precisa substituir e um pouco de cola em uma parte do tampo que descolou em pequeno pedaço, mas isso qualquer luthier faz tranquilamente e é serviço barato. Se eu fosse voltar a estudar eu mandava ajeitar e ficava com ele porque até mesmo professor já elogiou o som dele. É bem superior aos chineses que costumam ser vendidos na internet...

Que legal, não sei se você está no Brasil, mas se um dia quiser anunciar a um preço justo, anuncia em um nome de parente para preservar sua identidade que eu tenho interesse.

Ok! Pode deixar que qualquer coisa a respeito da venda... eu aviso.

Tmj

Sim, o professor Olavo era único e apesar de eu não ter o conhecido pessoalmente, tive a felicidade de ter trocado mensagens por email com ele duas vezes. Ele foi muito simpático e agradeceu pelo meu agradecimento a ele e se despedediu com um Feliz Natal. Era o ano de 2007 e essa direita atual nem existia e tudo era mato. Bolsonarismo nem sonhava em nascer e vir ao mundo, e muito desses youtubers famosos da direita nem na internet estavam. Eu fui da comunidade do Olavo no finado Orkut e aqueles fóruns tinha muita troca de informações. True Outspeak era sensacional e eu assisti e salvei todos, no YouTube chegou anos depois e foi sensacional ver o programa em vídeo no YouTube.

Veterano em, que top !!! Esse email com o professor é do tipo pra ser emoldurado, rsrs.