O diabo na história: comunismo, fascismo e algumas lições do século XX.
“A despeito de sua pretensão de transcender a alienação e reabilitar a dignidade humana, o comunismo era estéril moralmente, ou, nas palavras de Steven Lukes, sofria de cegueira moral. Uma vez que subordinou a noção de bem aos interesses do proletariado, o comunismo anulou a universalidade das normas morais. Pode-se dizer o mesmo acerca do fascismo, com sua exaltação das virtudes tribais primevas e completa desconsideração pela humanidade comum de todos os seres humanos. Ambos subscreveram ao Estado sua própria moralidade, garantindo-lhe apenas o direito de definir o significado e fim último da existência humana. O Estado ideológico tornou-se o valor supremo e absoluto dentro do arcabouço de uma doutrina escatológica da revolução. Os horrores que definiram o século passado foram então possíveis por causa de uma ʻinversão moralʼ: ʻOs crimes do Estado [foram] entendidos não como crimes, mas como precauções necessárias para prevenir maior injustiçaʼ. Através do culto da unidade absoluta ao longo do caminho até a salvação pelo conhecimento da história, assim o comunismo como o fascismo produziram projetos sociais e políticos novos e totais, centrados na purificação do corpo das comunidades que se tornaram presas desses feitiços ideológicos. Os novos homens ou mulheres produzidos por esses movimentos deixaram para trás seus ʻpequenos egos, contorcendo-se com medo e raquitismoʼ, pois tinham renunciado ao que o escritor proletário Maxim Gorki chamava desesperadamente a ʻfarsa da individualidadeʼ.”.
Filósofo Vladimir Tismăneanu