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**Análise Marxista da Obra "Utopia" de Thomas More**

### **1. Crítica à Propriedade Privada e Acumulação Capitalista**

A sociedade utopiana descrita por More elimina a propriedade privada, um princípio central no marxismo. A **comunização dos bens** — armazenados em armazéns coletivos e distribuídos conforme a necessidade — reflete uma crítica ao acúmulo de riqueza e à exploração do trabalho, temas caros a Marx. More denuncia as práticas de *enclosure* (cercamento de terras) de sua época, que deslocavam camponeses para privilegiar a criação de ovelhas, gerando pobreza e desigualdade. Essa crítica antecipa a análise marxista sobre a **acumulação primitiva do capital**, onde a expropriação de terras comuns é um mecanismo fundador do sistema capitalista.

### **2. Hierarquias e Contradições na "Sociedade Sem Classes"**

Apesar da aparente igualdade, a Utopia mantém **hierarquias estruturais**. A existência de escravos (criminosos ou prisioneiros de guerra) revela uma contradição: mesmo em uma sociedade que abole a propriedade privada, há grupos subjugados. A escravidão, justificada como punição ou "reeducação", reproduz relações de poder, desafiando a noção marxista de uma verdadeira **sociedade sem classes**. Além disso, líderes como os *Syphogranti* e o *Prince* perpetuam uma elite administrativa, sugerindo que a gestão coletiva não elimina totalmente a divisão entre governantes e governados.

### **3. Controle Social e Alienação**

A vida em Utopia é rigidamente regulamentada:

- Trabalho obrigatório de seis horas diárias (embora muitos trabalhem mais "voluntariamente").

- Rotação de casas a cada década.

- Proibição de viagens sem autorização.

- Refeições comunitárias e ausência de espaços privados.

Essas regras, embora visem a igualdade, refletem um **controle estatal autoritário** que suprime a autonomia individual. Para Marx, a verdadeira emancipação requer a autogestão dos trabalhadores, não a imposição de normas externas. A ausência de lazer privado e a padronização da vida cotidiana podem ser interpretadas como formas de **alienação**, onde o indivíduo é dissociado de suas escolhas e desejos.

### **4. Religião e Ideologia**

A tolerância religiosa em Utopia — exceto para ateus — expõe a função da **ideologia** na manutenção da ordem social. Os ateus são marginalizados por não aceitarem a moral coletiva, o que ecoa a ideia marxista de que a religião (e outras superestruturas) serve para justificar o status quo. A prece universal dos utopianos, embora pluralista, reforça a submissão a uma ética comum, alinhando-se à crítica de Marx à religião como "ópio do povo".

### **5. Utopia como Crítica ao Capitalismo Nascente**

More escreve em um contexto de transição feudal-capitalista. Sua denúncia da ganância, da guerra por interesses econômicos e da exploração do trabalho ressoa com a **crítica marxista ao capitalismo**. No entanto, sua solução — uma sociedade agrária, estática e regulada — é **idealista**, carecendo de uma análise materialista das forças produtivas. Marx e Engels, em *O Manifesto Comunista*, reconhecem as utopias pré-marxistas como visionárias, mas as criticam por ignorarem a luta de classes e a necessidade de revolução.

### **6. A Dialética do Título: "Utopia" vs. "Eutopia"**

A ambiguidade do título — "lugar nenhum" (*U-topia*) vs. "bom lugar" (*Eu-topia*) — simboliza a tensão entre o ideal e o real. Para o marxismo, a verdadeira transformação social não reside em modelos abstratos, mas na **práxis revolucionária** que altera as condições materiais. A Utopia de More, apesar de sua crítica social, permanece uma fantasia inatingível, pois não aborda as contradições dinâmicas do desenvolvimento histórico.

### **7. Legado e Limitações**

A obra influenciou pensadores socialistas utópicos, como Fourier e Owen, mas Marx os diferenciou por seu **cientificismo**. Enquanto More propõe um sistema fechado e harmonioso, o marxismo enfatiza o conflito como motor da história. A escravidão em Utopia e seu caráter estático revelam limitações: uma sociedade igualitária não pode ser imposta por decreto, mas deve emergir da **consciência de classe** e da transformação das relações produtivas.

### **Conclusão: Entre a Denúncia e a Quimera**

*Utopia* é uma crítica mordaz às injustiças do século XVI, antecipando temas marxistas como a exploração econômica e a alienação. No entanto, sua visão de sociedade idealizada — hierárquica, controladora e estática — falha em oferecer um caminho revolucionário. Para o marxismo, a verdadeira utopia não é um "lugar nenhum", mas um projeto histórico construído pela luta coletiva, onde a liberdade individual e a justiça social coexistem sem coerção.

El marxismo, lo que quiere abolir no es la propiedad privada en general. Lo que quiere socializar o abolir es la propiedad privada de los medios de producción. Y el Bitcoin es la primera apropiación colectiva del medio de producción monetaria; hasta el 2009, en manos privadas de los banqueros.

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