Olhando ao redor, em praticamente qualquer ambiente, é possível perceber que o nível de ambição do brasileirinho médio se resume a bens materiais, e não apenas ao prazer de possuir tais bens, mas ao prazer de mostrar a terceiros que os possui. O prazer de posar, de mostrar, de ostentar, o que é muito pior do que o simples prazer de possuir e desfrutar - o que já seria um grau baixíssimo de nobreza e ambição. A compreensão de escalas maiores de realizações foi tirada do povo brasileiro durante décadas, e substituída pela noção de um usufruto momentâneo e material, secular. Isso não é um síntoma apenas das classes mais baixas, como quem diz que apenas o pobre, que nunca teve acesso aos bens é que o busca com mais afinco, e até o idolatra, é um acontecimento que independe de classe social e se assemelha a uma depressão coletiva da massa heterogênea. Até em circulos sociais de maior poder aquisitivo, maior “cultura” formal, e o que é tido como a elite brasileira, os verdadeiros aristocratas, a falta de verdadeira ambição é perceptível. Nesses meios ela toma outra forma, ao invés do puro desejo pela ostentação de bens e posses, ela se assemelha ao comodismo de quem há gerações possui um círculo familiar “estável” e recursos financeiros. O principal síntoma desse mal na alta classe é o filho que é bancado pelos pais para estudar nas melhores universidades do mundo, viajar diversos países e conhecer muitos lugares, e tudo para em tese “ter novas experiências” e “mudar a cabeça”. Esse mesmo filho volta e assume uma posição com base no QI, mas não naquele QI, mas no “quem indica”, e permanece assentado em uma posição de gerencia, que de fato tem sua importância, mas que no fim não trata de multiplicar toda a herença cultural e material que lhe foi passada, é apenas mais um cargo na máquina maçante que se tornou a sociedade. É alguém que possui a capacidade de fazer algo grandioso, mas que a personalidade frágil demais, e a vontade omissa perante a realidade, acabam por impedir que tais ambições sequer fervam até a superfície da alma. Talvez esse síntoma seja até mais condenável moralmente do que o pobre, que busca os bens materiais que nunca teve, e que para isso, precisa no mínimo tentar fazer algo diferente, precisa se arriscar - mesmo que no crime, no golpe do marketing, ou de forma muito mais moral, trabalhando e suando com o dia-a-dia do brasileiro CLT comum.
Todos esses síntomas, entretanto, são óbvios para o observador atento, e a verdadeira questão seria onde se encontram os brasileiros de grandes ambições e como sua vida pode ser vivida de forma completa, buscando tais ambições no meio de tamanha fraqueza da espiritual dos demais. Imagine a seguinte situação, um jovem repositor de supermercado, que lê Platão para passar o tempo, que sonha com as conquistas de Alexandre e que se vê refletido em Napoleão, como o relâmpago avassalador que remodelou a estrutura política da Europa. Imagine outro jovem que sonha com grandes realizações, com conquistas do espaço, com infraestrutura, indústrias, aviões a jato, ferrovias que cortam seu país de norte a sul, ou outro ainda, que sonha com alguma relevência no cenário literário e de novas ideias. Todos são sonhadores na sarjeta, apenas coitados no fundo do poço os quais estariam mais felizes se não tivessem nascido com a predisposição a admirar os grandes feitos e as grandes realizações da humanidade. Seria melhor que pensassem apenas como os outros, apenas no prazer temporário e na ostentação dos bens materiais. Esses sonhadores são aqueles que se encontram sem meios para ação, apenas observando o desenrolar da realidade matando seus sonhos e destruindo sua vontade. O outro caso, o jovem da elite, que por algum motivo, também nasceu predisposto aos grandes feitos, termina por se ver igualmente removido de qualquer meio de ação no mundo, a burocracia, os velhos, a sociedade, tudo isso se transforma em empecilho para destruir cada um de seu projetos.
O Brasil não é o país feito para os grandes homens. Cada um dos mais nobres, grandiosos e louváveis que o Brasil já teve a sorte de possuir, ele também teve o prazer de aniquilar. Desde do grandissíssimo barão - depois conde - de Mauá, que se viu numa encruzilhada com o governo brasileiro, ou os Matarazzo, que foram completamente obliterados financeiramente e retirados de qualquer meio industrial de produção, e se não completamente aniquilados em termos financeiros, pelo menos completamente em termos morais e de grandeza de espirito. O padrão se segue com inúmeros outros exemplos, pintores, músicos, filósofos, inventores, engenheiros, pensadores e diversos outros, que se não em vida, pelo menos de forma póstuma, tiveram sua honras e memórias manchadas, apagadas, ou simplesmente ignoradas em prol da disposação das massas. O reality show, a “novelinha”, a fofoca da mídia, o meme da rede social. O Brasil, a sociedade, não tolera intensidade, ela tolera insignificância, ela aceita o pueril e abraça o desnecessário e baixo. Tentar ser grandioso, se elevar acima do meio, é algo perigoso, qualquer pessoa que o faça de forma lúcida, ou seja, com a plena razão do que está fazendo, aceitando a possiblidade de se transformar em um mártir das grandes ambições, ou nem em mártir, pois para ser mártir é necessário alguma lembrança póstuma. Mas para correr o risco de ser apenas mais uma vítima anônima do massacre dos grandes ideais e das grandes personalidades que se promove nesta nação, este é um verdadeiro héroi anônimo.
A solução para este problema? Meu caro leitor já deve se perguntar. Não há. Sofra, resista, mas não se curve, quebre antes de se deformar. Se quiser realmente realizar coisas grandiosas, não as faça aqui, procure o lugar no mundo onde seus talentos e ambições possam ser realizadas. Esqueça o lema do filósofo: “benefac loco quo ili natus est” (faze o bem ao lugar onde naceste), e vá buscar suas ambições de forma mais heróica e menos deprimente e melancólica em outro lugar. E, acima de tudo, imagine Sísifo feliz.