**Análise Marxista dos Quilombos: Autonomia, Classe e Resistência ao Capitalismo Colonial**
Os quilombos, comunidades autônomas formadas por pessoas escravizadas que fugiam do jugo colonial, representam um dos capítulos mais radicais da resistência negra no Brasil. Do ponto de vista marxista, esses espaços não foram apenas refúgios contra a opressão, mas **experiências concretas de organização social anticapitalista**, desafiando as bases materiais do sistema escravista e colonial. Sua análise revela a interseção entre raça, classe e luta por autonomia em um contexto de acumulação primitiva de capital.
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### **1. Contexto Histórico: Quilombos como Resposta à Acumulação Primitiva**
- **Escravidão e capitalismo colonial**: A economia colonial brasileira baseou-se na **exploração escravista de africanos** para a produção de commodities (açúcar, ouro, tabaco), integradas ao mercado global. A escravidão não foi um "anacronismo", mas um **motor da acumulação capitalista**, conforme analisado por **Eric Williams** e **Walter Rodney**.
- **Fuga como ato revolucionário**: A formação de quilombos (do quimbundo *kilombo*, "acampamento de guerra") foi uma **resistência ativa** à mercantilização de corpos negros. Cada fuga representava uma ruptura com a lógica de propriedade privada e uma afirmação de humanidade.
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### **2. Estrutura Social e Econômica dos Quilombos: Comunismo Primitivo e Autogestão**
- **Propriedade comum e trabalho coletivo**: Quilombos como Palmares, Macaco, e Amaro organizavam-se em torno da **posse coletiva da terra** e da divisão igualitária do trabalho. A agricultura de subsistência, a caça e a coleta garantiam a sobrevivência sem exploração de classe.
- **Negativa da hierarquia colonial**: Ao contrário do latifúndio escravista, os quilombos rejeitavam a divisão racial do trabalho e a concentração de poder. A liderança era exercida por conselhos ou chefes militares (como Zumbi), mas a **participação coletiva** era central.
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### **3. Quilombos como Espaços de Luta de Classes Racializada**
- **Guerra contra o colonialismo**: Os quilombos não eram passivos, mas **protagonistas de uma guerra de classes**. Ataques a engenhos, libertação de cativos e alianças com indígenas e brancos pobres ameaçavam a estabilidade do sistema escravista.
- **Racismo como arma de divisão**: A repressão colonial aos quilombos (como as bandeiras destruidoras de Palmares) visava não apenas recuperar "propriedade", mas **manter a ideologia racial** que justificava a escravidão.
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### **4. Cultura Quilombola: Resistência Simbólica e Material**
- **Reconstrução da identidade africana**: Nos quilombos, práticas culturais (como o candomblé), línguas africanas e sistemas de parentesco foram preservados, criando uma **cosmovisão alternativa** à imposição colonial.
- **Cultura como arma política**: A arte, a música e os rituais reforçavam a coesão social e a resistência psicológica, servindo como **ferramentas de luta ideológica** contra a desumanização promovida pelo escravismo.
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### **5. Legado Contemporâneo: Quilombolas e a Luta por Território**
- **Quilombos remanescentes**: Comunidades como os **mocambos do Maranhão** e os terreiros de candomblé mantêm a tradição de resistência, lutando por direitos territoriais e contra o racismo ambiental (ex.: grilagem de terras, projetos de mineração).
- **Estado e violência institucional**: A lentidão na titulação de terras quilombolas (garantida pela Constituição de 1988) e a violência policial contra essas comunidades revelam a **continuidade do capitalismo racial** no Brasil.
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### **6. Crítica Marxista à Coisificação dos Quilombos**
- **Fetichismo da mercadoria**: A memória dos quilombos é frequentemente reduzida a "patrimônio cultural" ou "símbolo de resistência", ignorando sua **dimensão anticapitalista**. O turismo em ruínas de quilombos, por exemplo, transforma a luta histórica em mercadoria.
- **Luta por reparação histórica**: A verdadeira homenagem aos quilombos exigiria:
- **Reforma agrária quilombola** (apenas 5% das terras foram tituladas até hoje).
- **Fim do genocídio negro** (78% das vítimas de homicídio no Brasil são negras).
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### **Conclusão: Quilombos como Projeto Emancipatório**
Os quilombos foram **laboratórios de autonomia** que desafiaram o capitalismo colonial em seus primórdios. Sua existência prova que outra sociedade é possível: uma baseada na **cooperação, igualdade racial e soberania sobre o território**. Como escreveu **Clóvis Moura**:
> *"O quilombo não foi apenas uma fuga da escravidão, mas uma tentativa de construir uma sociedade alternativa"*.
Hoje, a luta quilombola continua nas periferias urbanas, nas universidades ocupadas e nas mobilizações por justiça racial. O legado dos quilombos reforça que a emancipação negra e a superação do capitalismo são processos indissociáveis.
**Para reflexão**:
- Como os quilombos inspiram movimentos sociais contemporâneos, como o MST e o Movimento Negro Unificado?
- Por que o Estado brasileiro ainda trata comunidades quilombolas como "obstáculos ao desenvolvimento"?
A história dos quilombos é um grito de que **a liberdade não é concedida, mas conquistada** — e que a luta de classes, no Brasil, é racializada desde suas origens.