Dentro da cidade de Brahman, que é o corpo, existe o coração, e dentro do coração existe uma pequena casa. Essa casa possui a forma de um lótus, e dentro dela mora aquilo que deve ser procurado, investigado e percebido.
O que é então que, morando dentro dessa pequena casa, desse lótus do coração, deve ser procurado, investigado e percebido?
Tão grande quanto o Universo exterior, é o Universo dentro do lótus do coração. Dentro dele estão os céus e a Terra, o Sol, a Lua, o relâmpago, e todas as estrelas. O que está no macrocosmo está nesse microcosmo.
Todas as coisas que existem, todos os seres e todos os desejos estão na cidade de Brahman; o que então acontece com eles quando a velhice se aproxima e o corpo se dissolve na morte ?
Apesar de a velhice chegar ao corpo, o lótus do coração não envelhece. Por ocasião da morte do corpo, ele não morre. O lótus do coração, onde Brahman existe em toda a sua glória - ali, e não no corpo, está a verdadeira cidade de Brahman. Brahman, que ali habita, não é tocado por qualquer ação, não envelhece, é imortal, está livre da dor, da fome e da sede. Seus desejos são desejos perfeitos, e seus desejos são satisfeitos.
Do mesmo modo como aqui na Terra toda a riqueza que alguém obtém é apenas transitória, também são transitórias as alegrias celestiais obtidas pela execução de sacrifícios. Conseqüentemente, aqueles que morrem sem haver percebido o Eu e seus desejos corretos não encontram felicidade permanente em qualquer mundo a que possam ir; enquanto aqueles que perceberam o Eu e seus desejos corretos encontram felicidade permanente em todos os lugares.
Na verdade, seja o que for que um tal conhecedor de Brahman possa desejar, imediatamente o obtém; e após obtê-lo é louvado pelos homens. A satisfação dos desejos corretos está ao alcance de todos, porém um véu de ignorância obstrui o ignorante. É por isso que, embora desejem ver seus mortos, seus entes queridos, não podem vê-los.
Ansiamos por nossos entes queridos, entre os' vivos ou entre os mortos, ou existe algo pelo qual ansiamos e, contudo, apesar de todo nosso desejo, não o obtemos? Tudo será nosso se apenas mergulhamos profundamente no interior, até o lótus do coração onde habita o Senhor. Sim, o objeto de todo desejo correto está ao nosso alcance, embora invisível, escondido por um véu de ilusão.
Do mesmo modo como uma pessoa que não saiba que um tesouro repleto de ouro se encontra enterrado embaixo dos seus pés poderá passar por cima dele repetidamente e não encontrá-lo, assim todos os seres vivem cada momento na cidade de Brahman, porém nunca o encontram, devido ao véu da ilusão atrás do qual ele está escondido.
O Eu reside dentro do lótus do coração. Sabendo disso, consagrado ao Eu, o sábio penetra diariamente nesse santuário sagrado.
Absorto no Eu, o sábio se liberta da identidade com o corpo e vive num estado jubiloso de consciência. O Eu é o imortal, o que não tem medo; o Eu é Brahman. Esse Brahman é a Verdade eterna.
O Eu dentro do coração é como uma fronteira que separa o mundo daquele. O dia e a noite não atravessam essa fronteira, nem a velhice, nem a morte; nem a dor ou o prazer, nem as boas ou as más ações. Todo o mal foge DELE. Pois ELE está livre da impureza: ELE nunca pode ser tocado pela impureza.
Portanto, aquele que atravessou essa fronteira, e percebeu o Eu, se for cego, deixará de ser cego; se estiver ferido, deixará de estar ferido; se estiver aflito, deixará de estar aflito. Quando essa fronteira é atravessada, a noite se torna dia, pois o mundo de Brahman é a própria luz.
Esse mundo de Brahman é atingido por aqueles que praticam a continência, pois o conhecedor da verdade eterna a conhece através da continência; e o que é conhecido como veneração, isso também é continência. Pois um homem venera o Senhor pela continência, e assim o atinge.
O que as pessoas chamam de salvação é, na verdade, continência. Pois através da continência o homem é libertado da ignorância; e o que é conhecido como voto de silêncio, isso também é, na verdade, continência. Pois um homem, através da continência, percebe o Eu e vive em calma contemplação.
Que a tranqüilidade desça sobre os meus membros,
A minha fala, o meu alento, os meus olhos, os meus ouvidos;
Que todos os meus sentidos se tomem claros e fortes.
Que Brahman se mostre a mim.
Que eu jamais negue Brahman, nem Brahman a mim.
Eu com ele e ele comigo -
possamos permanecer sempre juntos.
Que seja revelada a mim,
Que sou devotado a Brahman,
A sagrada verdade dos Upanishads.
OM. .. Paz - paz - paz.
Chandogya Upanishad
Os Upanishads
tradução de Swami Prabhavananda
