**Análise Marxista da Idade Moderna (1453–1789)**
A Idade Moderna é um período de transição do **feudalismo** para o **capitalismo**, marcado pela ascensão da burguesia, pela expansão colonial, pela acumulação primitiva de capital e pelas revoluções burguesas que consolidaram novas relações de produção. A análise marxista destaca as contradições entre **forças produtivas** (navegação, manufaturas, ciência) e **relações de produção** (propriedade privada, trabalho assalariado, escravidão colonial), bem como a luta de classes que destruiu as estruturas feudais e pavimentou o caminho para a sociedade capitalista.
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### **1. Transição do Feudalismo ao Capitalismo**
#### **a) Crise do Feudalismo e Ascensão da Burguesia**
- **Fim da servidão:** A Peste Negra (1347–1351) reduziu a população europeia, aumentando o poder de barganha dos camponeses e enfraquecendo os senhores feudais.
- **Expansão comercial:** O comércio com o Oriente (especiarias, seda) e as grandes navegações (século XV) geraram riquezas para mercadores e banqueiros, que desafiaram o poder aristocrático.
- **Proto-industrialização:** O sistema de *putting-out* (manufaturas domesticadas) e as corporações urbanas prepararam o terreno para a produção capitalista.
#### **b) Acumulação Primitiva de Capital**
- **Colonialismo:** A exploração da América, África e Ásia (ouro, prata, escravos) transferiu riquezas para a Europa, financiando a acumulação burguesa.
- **Cercamentos (*Enclosures*):** A expropriação de terras comunais na Inglaterra (séculos XVI–XVIII) transformou camponeses em proletários, criando um mercado de trabalho assalariado.
- **Escravidão colonial:** O tráfico transatlântico de africanos (1500–1800) foi fundamental para a acumulação de capital nas mãos de comerciantes e plantadores.
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### **2. Modos de Produção e Contradições**
#### **a) Mercantilismo**
- **Forças produtivas:** Navegação aprimorada (caravelas), metalurgia (armas de fogo), agricultura comercial (açúcar, tabaco).
- **Relações de produção:**
- **Monopólios coloniais:** Estados absolutistas (ex.: Espanha, Portugal, França) controlavam o comércio colonial via pactos mercantilistas.
- **Trabalho escravo:** Nas colônias, africanos escravizados produziam commodities para o mercado europeu.
- **Contradição:** O mercantilismo, ao monopolizar riquezas, limitou a concorrência e gerou tensões entre burguesia comercial e monarquias.
#### **b) Manufaturas e Proletariado**
- **Forças produtivas:** Tecelagens, siderurgia e mineração avançaram com divisão do trabalho.
- **Relações de produção:**
- **Trabalho assalariado:** Artífices urbanos e camponeses despossuídos formaram um proletariado nascente.
- **Contradição:** A exploração nas manufaturas (ex.: fábricas de lã inglesas) gerou revoltas (ex.: Levellers na Inglaterra, 1647).
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### **3. Luta de Classes e Revoluções Burguesas**
#### **a) Reforma Protestante (1517–1648)**
- **Ideologia:** Lutero e Calvino desafiaram a Igreja Católica, legitimando a ética do trabalho e a acumulação capitalista.
- **Contradição:** A Reforma dividiu a Europa, mas uniu burguesia e príncipes protestantes contra o poder papal e feudal.
#### **b) Revolução Inglesa (1640–1660)**
- **Causas:** Conflito entre monarquia absolutista (Carlos I) e Parlamento (burguesia e gentry).
- **Resultado:** Execução do rei, República de Cromwell e consolidação do poder burguês.
- **Marx:** Chamou-a de "primeira revolução burguesa", que aboliu os monopólios feudais e expandiu o mercado interno.
#### **c) Iluminismo e Revolução Francesa (1789)**
- **Ideologia:** Filósofos como Locke, Voltaire e Rousseau defenderam liberdade, igualdade e propriedade privada.
- **Revolução Francesa:**
- **Lema:** "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" mascarou a dominação burguesa.
- **Resultados:** Fim dos privilégios feudais, venda de terras da Igreja e consolidação do Estado burguês.
- **Marx:** Criticou-a como uma revolução que substituiu a aristocracia por uma nova classe exploradora.
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### **4. Crítica à Linearidade e Expansão Global**
- **Diversidade de trajetórias:**
- Na Europa Oriental, o feudalismo persistiu (ex.: servidão na Rússia até 1861).
- Nas colônias, o capitalismo emergiu via violência (ex.: mineração na América Latina, plantations no Caribe).
- **Eurocentrismo:** A acumulação europeia dependeu do saque colonial e do genocídio indígena, não apenas de "inovação".
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### **5. Conclusão: Do Capitalismo Comercial ao Industrial**
A Idade Moderna foi um laboratório de **luta de classes** que destruiu as relações feudais e criou as bases materiais para o capitalismo industrial. A burguesia, aliada a monarcas e escravocratas, consolidou seu poder via revoluções, colonialismo e ideologias iluministas. Contudo, como alertou Marx, essa "libertação" burguesa preparou novas formas de exploração, culminando na **classe trabalhadora** do século XIX. A Modernidade, portanto, não foi um progresso linear, mas um processo contraditório de dominação e resistência, cujas raízes estão enterradas na violência da acumulação primitiva.