"Há duas maneiras de criticar uma idéia ou proposta política. A primeira é fazê-la em nome da razão e da experiência histórica acumulada. A segunda é julgá-la em nome de um ideal de sociedade futura. Lukács dizia que só esta segunda maneira é legítima, pois só pode enxergar os males do presente, segundo ele, quem esteja empenhado em moldar o futuro. Mas isto é um típico jogo de palavras marxista, pois não há futuro predeterminado: os futuros possíveis são em número indefinido, e indeterminado o número de imagens que o presente mostrará nessa coleção de espelhos sem-fim. Se atrelamos ao futuro nossa visão do presente, só há um modo de escapar da hesitação eterna: é escolher entre esses futuros um que seja do nosso agrado e tomá-lo arbitrariamente como medida do presente. Mas isto é fazer do gosto pessoal o juiz supremo em assuntos públicos, o que nos coloca na difícil contingência de admitir a insignificância da nossa opinião entre muitas outras, neutralizando-a como se nada tivéssemos dito, ou ao contrário impô-la pela força a todos os que não vêem razão nenhuma para aceitá-la.
Julgar em nome do futuro é julgar em nome do próprio umbigo.
Podemos, é claro, argumentar em favor da nossa escolha. Podemos alegar que esse é o melhor dos futuros possíveis, que o mundo caminha para ele inelutavelmente, etc. Mas isto só nos levará a uma irracionalidade maior ainda, pois, não podendo dizer com razoável certeza quando esse futuro há de se realizar, nem se a Humanidade chegará viva até lá, estaremos tomando como medida para o julgamento do presente uma hipótese a realizar-se em prazo indeterminado — o que é, para dizer o mínimo, pueril e irresponsável: juramos que “o futuro” será assim ou assado e ao mesmo tempo confessamos não saber sequer quão futuro ele será. É o mesmo que dizer que vai dar a cabra no jogo do bicho, com a ressalva de que não se sabe se é amanhã, no ano que vem ou no “Dia de São Nunca”. Querer tomar uma imagem tão deslizante como fundamento inabalável para julgar uma realidade concreta do presente é uma atitude tão despropositada, que deveria bastar para desqualificar intelectualmente, no ato, quem fosse pego nesse flagrante delito.
Eis por que não posso levar a sério, no mínimo que seja, a esquerda intelectual, brasileira ou de qualquer outro lugar. Conforme já expliquei noutro escrito ( O Imbecil Coletivo II), ser esquerdista é julgar o presente à luz do futuro; e é precisamente isto o que permite a todo esquerdista mudar de critério e de discurso a cada nova etapa, adiando indefinidamente para o futuro o julgamento da veracidade das suas pretensões, sem precisar jamais — literalmente jamais — responder no presente pelas conseqüências de seu passado.
O esquerdismo é uma completa perversão da inteligência, uma abolição do senso do real e das conexões de causa e efeito. É o complexo de Peter Pan intelectual."
Olavo de Carvalho
Mais uma impecável abordagem de um dos principais aspectos da Mentalidade Revolucionária que o filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022) nos traz no artigo de 20 de janeiro de 2000, "Dois Estilos de Pensar", e que se encontra no livro "O Leão e os Ossos - O Que Sobrou do Imbecil".
"Do que falaremos, de quais crimes? O comunismo cometeu inúmeros: inicialmente, crimes contra o espírito, mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucescu destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens, de mulheres, de crianças?
Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenômeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por meios diversos — fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome — indigência provocada e/ou não socorrida; deportação — a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabaIhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de "guerra civil" é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.
Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
— URSS, 20 milhões de mortos,
— China, 65 milhões de mortos,
— Vietnā, 1 milhão de mortos,
— Coréia do Norte, 2 milhões de mortos,
— Camboja, 2 milhões de mortos,
— Leste Europeu, 1 milhão de mortos,
— América Latina, 150.000 mortos,
— África, 1,7 milhão de mortos,
— Afeganistão, 1,5 milhão de mortos,
— Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder, uma dezena de milhões de mortos.
O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos.
Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. E incontestável que, em valor relativo, o "troféu" vai para o Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz — a fome, a tortura — aproximadamente um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto à Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, porém perfeitamente refletido, lógico, político."
Stéphane Courtois
Biólogos marinhos testemunharam recentemente orcas matarem uma baleia azul (a maior espécie animal do planeta). O grupo separou o filhote de baleia de sua mãe, revezou-se para mantê-lo debaixo d'água para afogá-lo, exibiu seu cadáver para se gabar e depois comeu APENAS sua língua. 😨