♥️ It will keep someone else warm now.
this is such a beautiful way to see it. thank you so much for this. ♥️
mais um conto de 2020
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Duas caixas de madeira empilhadas estavam encostadas na parede. Alguns passos à frente delas havia um poço onde um homem coletava água com um balde também de madeira.
O homem levara uma bacia de alumínio e a colocou ao lado do poço. Aos poucos ele a ia enchendo com a água.
Quando terminou de encher, o homem pegou a bacia e foi caminhando até as caixas. Poucos metros acima delas se podia ver uma mulher esperando na janela. O homem a olhou quando chegou. Sorriu e, ao vê-la assentir com a cabeça, subiu nas caixas, levantou a bacia esticando seus braços e entregou-lhe.
Ela rapidamente dispôs o utensílio em cima de uma estante, embebedou um pano no líquido e foi ao encontro de uma mulher que estava deitada na cama com o rosto molhado de suor.
A mulher não parecia bem. Estava movendo seu corpo como quem sente desconforto em qualquer posição. A cuidadora, com o pano em mãos, o deslizou em sua testa com delicadeza e cuidado.
A mulher na cama estava com os olhos pequenos, quase fechados, como quem precisa prestar atenção em seu mundo interno. Mas assim que a outra passou o pano pela terceira vez, dando leves batidinhas, ela abriu seus olhos completamente, como se voltasse de uma viagem interna profunda e estivesse perplexa com tudo o que ocorrera lá.
Aos poucos foi se levantando, se vestindo e descendo as escadas - para a surpresa de todos que dela cuidavam. Ela parecia confiante, mas, ao chegar no meio da escada, tropeçou em seu próprio pé e caiu rolando por alguns degraus.
Todos escutaram o barulho e vieram correndo acudi-la. Ela se sentou em um dos degraus, com as mãos abraçando os joelhos, e chorou. Ficou por alguns minutos nesse estado, até que olhou para todos à sua volta e agradeceu.
A mulher que cuidava dela e o homem que pegara a água a ajudaram a se levantar com suavidade foram até a sala para que ela se sentasse em uma poltrona. Ela se sentou e pediu um chá.
Enquanto esperava, pegou um papel e uma caneta que estavam em cima da mesa ao lado e começou a escrever uma carta com os dizeres: "Estou cansada. Por toda minha vida precisei ser forte e, na verdade, nem me lembro mais o motivo. Ser forte, para mim, era estar sempre pronta para meus afazeres e não me deixar abater por emoções tolas ou doenças quaisquer. Ser forte era ser respeitada pelos outros, ainda que sentissem também um pouco de medo. Mas isso tudo parece ter ido longe demais. Não tenho forças para controlar sequer minhas pernas, que dirá outras pessoas com quem convivo. Eu desisto. Me entrego a essa tristeza que me procura há tempos, sem cessar. Com ela vou dormir e, quem sabe, não mais acordar."
Deixou os escritos sobre a mesa e em cima colocara a caneta que rolou e caiu no chão. Abandonou seu corpo, que amoleceu completamente, com a cabeça caindo por cima do braço da poltrona. Seus olhos abertos e tristes demonstravam que ela tinha sido absorvida pela emoção.
Ela dava lentas piscadas e em algum momento dormiu. Sonhou que estava em uma bela paisagem verde com um lago ao fundo e ao lado dela estava sua mãe, que morrera quando ela era ainda pequena. Ela se despiu completamente e entrou no rio, mergulhando em suas profundezas.
Lá de dentro ela podia ver com nitidez tudo o que acontecia na superfície e viu sua mãe feliz vendo-a desfrutar daquilo tudo. Ela levantava e mergulhava novamente, vendo tudo com cada vez mais clareza. Foi então que viu chegar uma criança muito parecida com ela. A menina se aproximou e deu as mãos para a mãe da mulher e as duas foram embora felizes e tranquilas.
Naquele momento, a cuidadora tropeçara na caneta no chão ao chegar com o chá e mulher despertou. Olhou para o chá e para sua fiel companheira e chorou. Abraçou-a, pegou a carta e saiu sem tomar o chá. Ela havia se curado.
you are making me think about the possibility again! haha in English I can't right now, I would have to read a lot to be able to record an audio book. but it was nice to know that maybe it would be wanted.
I wanted to record audiobooks, but I'm afraid people would fall asleep with my voice. haha that's what bothers you? I think I'm better at reading children's books.
kids are respectful and caring and loving when we give them space and give them precise limits and boundaries.
they are understanding their own space in life and if you guide them to be responsible for what they feel and do, being there with them to embrace their emotions and saying no to some actions, they will certainly respect others space as well.
the consequences of their actions are not punishment, but having to deal with the emotions they feel after they notice they have hurt someone and with the "no" someone said to them. I have so many experiences of kids being so genuinely nice to each other after they had a conflict and an adult was there with them without taking sides, just willing to listen to each kid, how they felt, what they needed. that's, I think, is the job of adults.
I record the audio on my cellphone and convert it to MP4 and sent it as a video hahaha I don't know if it is a stupid way, but it was the way I found to do this.
I understood it this way:
don't give children responsibilities that are for an adult - such as offering loving and precise limits so that they can explore and create from their potential. Let them live their childhood for the time they deserve and offer support for this.
I agree with this and it is what I have tried to do with my children. Help them to take responsibility for what they can already take responsibility for as children - learning, creating, playing, experimenting, feeling all emotions, taking care of their own space - with my support giving room for all of this.
ah, acho que tudo de alguma forma tem algo do que eu vi ou vivi, mas essas histórias eu escrevi em um fluxo bem livre mesmo, sem pensar demais. as imagens iam surgindo enquanto eu fechava os olhos e eu tentei traduzi-las em palavras.
os dois primeiros vieram de um encontro online com um amigo, pra escrever contos mesmo - o que eu nunca tinha feito.
os outros foram surgindo assim:
era aniversário de uma criança querida pra mim, então eu pensava nela, deixava surgir todos os julgamentos e impressões que eu tinha dela, e depois abria mão de tudo isso. deixava isso tudo ir até que eu me deparava com um vazio. eu sustentava esse vazio até que apareciam imagens e eu tentava descrevê-las. depois eu enviava para as mães das crianças. e depois comecei a fazer isso pra adultos também. foram 18 contos assim.
eu acho que parecem sonhos mesmo, porque eles não têm tanta interferência racional e eu queria trazer algo mais do inconsciente mesmo.
obrigada por ler e por trazer essa pergunta! 🌻
sending you a hug! don't feel pressured to be positive like feeling hope or trust. allowing you to feel what you are feeling right now is what is really positive. respecting yourself is what is really positive. I guess Pollyanna's view of life came to me as respecting our emotions and seeing none of them as negative. ♥️ it's perfectly normal to be frustrated when our plans don't get to go the way we imagined.
presença para reparar as sutilezas

outro conto de 2020
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Aquela escada parecia interminável e a moça que a subia, por muitas vezes, precisou se apoiar na parede ao lado. Ela estava cansada e com seus joelhos doloridos mas, ainda assim, subia.
Em um desses momentos de descanso, a mulher olhou para o degrau em que estava e viu uma mancha preta com um formato circular. A moça passou seus dedos na mancha e viu que conseguira limpar a escada, mas ficou com seus dedos sujos.
Continuou seguindo e no próximo descanso viu mais alguma coisa no degrau onde estava. Era uma mancha branca. Fez o mesmo processo e seus dedos ficaram sujos novamente. Não mais pretos. Agora estavam brancos.
Começou a subir observando cada degrau e em todos eles encontrava algo em que tocar e sempre ficava com os dedos cheios daquilo em que encostava.
O caminho foi ficando menos cansativo e a subida não parecia mais tão difícil. Estava animada e tranquila e continuou seu percurso.
Até que chegou no último degrau e, antes que ela pudesse olhar para ele, viu que não havia nada à frente - apenas o vazio. Ela se desesperou e quis voltar, mas os degraus abaixo estavam embaçados, como se fossem desaparecer a qualquer momento.
Sem conseguir olhar para frente ou para trás, olhou para baixo e viu seus pés bem apoiados naquele degrau. Junto deles havia um embrulho. Ela o abriu e sorriu. Agora sabia que podia seguir. Se lembrou que tinha tudo de que precisava para entrar no vazio e ser atravessada pelo novo que surgiria. O que estava embrulhado era um lenço com uma borboleta bordada.
two songs came into my mind reading your note:
all my life (foo fighters)
angel (Sara McLachlan)
thank you! that was beautiful hahaha I'm always afraid to win this contest, but you helped me drop all my fears. 🔥
mais um conto de 2020
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No centro havia uma fogueira. Uma moça de cabelos curtos estava sentada fitando o fogo com um cobertor azul cobrindo suas costas. Lágrimas rolavam por seu rosto avermelhado. Ela estava fugindo e naquele momento resolvera parar e descansar.
Ficou chorando sem se mover até que se sentiu suficientemente aquecida e foi se deitar. Precisava estar disposta e alerta para continuar seu caminho. Entrou em sua barraca e logo adormeceu, tamanho seu cansaço.
Durante a madrugada ouviu sons lá fora repetidas vezes. As sombras mostravam que eram animais, então ela ficava tranquila e voltava a dormir.
Amanheceu e quando a moça saiu da barraca havia um banquete a esperando. Ela ficou muito confusa e desconfiada e olhou pelos arredores para ver se alguém estava à espreita ou se percebia que alguém tinha passado por ali. Não parecia ter nenhum vestígio humano, apenas de animais, e era o que ela realmente tinha percebido à noite.
Uma borboleta passou na ponta do seu nariz e depois rodeou a comida, como se a convidasse para o café. A mulher decidiu que comeria, depois daquela sutileza, daquele sinal tão bonito.
Ela comeu o suficiente e resolveu guardar o restante para mais tarde. Juntou suas coisas e saiu em direção ao seu novo lar. Enquanto caminhava, ela começou a ouvir alguns sons estranhos e ficou alerta.
De repente, saltou à sua frente um tigre muito grande. Ela nunca tinha se deparado com tamanha criatura. Ele começou a rodeá-la, mas ela não teve medo. Na verdade, se sentiu segura ao encontrá-lo.
O tigre se aproximou dela e, num salto, jogou no chão a mochila que ela carregava nas costas. Naquele momento, apareceu uma borboleta. Pousou no nariz da mulher e rodeou a mochila, como antes tinha feito.
A moça entendeu que o tigre queria aquela comida, então retirou-a da mochila e deixou no chão. Quando olhou, estava sozinha novamente.
Seguiu o seu caminho pisando em folhas secas e ouvindo o barulho que surgia. Ela se sentia cada vez mais confortável. Foi então que começou a ficar com fome. Procurou comida e, por sorte, havia uma macieira bem perto.
Ela pegou duas maçãs e comeu. Pensou sobre o que acontecera antes, olhou para as frutas suculentas e resolveu levar outras duas consigo.
Seguiu caminhando até que encontrou uma fogueira com uma barraca por perto. Já era noite, bem tarde, aliás. Ela viu que alguém deitava lá dentro, com um cobertor azul cobrindo seu corpo. A moça resolveu deixar em frente à barraca as duas maçãs.
Amanheceu, a mulher saiu da barraca e, de novo, tinha seu café da manhã servido. Ela comeu as duas maçãs muito agradecida. Encontrou, finalmente, seu lar.

quando o pôr do sol nos lembra mais nitidamente de que precisamos deixar ir e deixar ser, do jeito que foi. quando ele nos convida à aceitação para dar espaço à novidade do inconcebível. quando ele nos convida a sentir e as lágrimas se tornam inevitáveis no caminho.
quando alguém nasce
tudo muda
quando alguém morre
tudo muda
a composição da vida
o que se sente
o estado de coisas
nada fica intocado
nasce alguém feito onda que toca os pés
morre alguém feito onda que se recolhe de volta à imensidão do desconhecido
às vezes leva o que trouxe
às vezes deixa algo pra trás
mas vai
e nunca volta.
outras ondas vêm
podem até trazer as mesmas coisas,
mas nunca a mesma poderá voltar.
não basta amar alguém
é preciso abraçar suas incessantes mortes em vida
viver em abertura para suas transformações
o que não é possível sem amor
amor não pela pessoa em si
mas aquele que percorre tudo e todos
-amor
toda transformação diz respeito a tudo
cada movimento a tudo afeta
diante a morte dos afetos
feito feto prestes a (re)nascer
se vive o luto
feito mãe grávida de si
cada onda um convite
olhar para as memórias
tudo o que se viveu ou deixou de viver com o outro
e se estagnou, não se moveu
convite para deixar fluir
movimentar
sentir enfim o que não podia antes
prolongar a vida juntos
vivendo de novo, mas de forma inédita, a relação

