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𝚋𝚊𝚝𝚜𝚒𝚚
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«Honk, honk!» — Harpo Marx ᵐᵃⁱˢ ᵘᵐ ᵒᵇˢᶜᵘʳᵒ ⁿᵒˢᵗʳⁱⁿʰᵒ ᵇᵃⁱˣᵃ ʳᵉⁿᵈᵃ ᵉ ᵈᵉˢᵈᵉⁿᵗᵃᵈᵒ

GALO GALO

(Ferreira Gullar)

O galo

no salão quieto.

Galo galo

de alarmante crista, guerreiro,

medieval.

De córneo bico e

esporões,  armado

contra a morte,

passeia.

Mede os passos.  Pára.

Inclina a cabeça coroada

dentro do silêncio

— que faço entre coisas?

— de que me defendo?

Anda.

no saguão.

O cimento esquece

o seu último passo.

Galo: as penas que

florescem da carne silenciosa

e duro bico e as unhas e o olho

sem amor. Grave

solidez.

Em que se apóia

tal arquitetura ?

Saberá que, no centro

de seu corpo, um grito

se elabora ?

Como,  porém, conter,

uma vez concluído,

o canto obrigatório ?

Eis que bate as asas, vai

morrer, encurva o vertiginoso pescoço

donde o canto rubro escoa

Mas a pedra, a tarde,

o próprio feroz galo

subsistem ao grito.

Vê-se:  o canto é inútil.

O galo permanece — apesar

de todo o seu porte marcial —

só, desamparado,

num saguão do mundo.

Pobre ave guerreira!

Outro grito cresce

agora no sigilo

de seu corpo; grito

que, sem essas penas

e esporões e crista

e sobretudo sem esse olhar

de ódio,

não seria tão rouco

e sangrento.

Grito, fruto obscuro

e extremo dessa árvore: galo.

Mas que, fora dele,

é mero complemento de auroras.

[São Luís, abril de 1951]

Tradução para «bullish»: bulício. ✍️

(...)

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,

depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Congresso Internacional do Medo, Carlos Drummond de Andrade

«Dark-eyed Cossack Girl» sung by Leonid Kharitonov:

https://youtu.be/G7PSKOo6vNs?feature=shared