SEXTA-FEIRA DEPOIS DO TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA

O dom da piedade

Toda a matéria moral se divide em três partes: as coisas deleitáveis, que segue o amor carnal; as coisas difíceis, das que foge; e as comunicáveis que se referem a outro, as quais mais bem consistem em ação que em paixão.

Em cada uma delas intervém a direção das virtudes e dos dons, porém de maneira diferente. Porque a virtude dirige tomando como regra algo humano, mas o dom toma o divino como regra.

Nos deleites, a virtude se inspira na dignidade humana, que nós envilecemos pelos deleites temporais. Mas o dom se inspira na dignidade divina a que nós tememos ofender por esses bens terrenos; o qual pertence ao temor. E o mesmo há que dizer do dom da fortaleza e das virtudes que têm por fim suportar as dificuldades ou combatê-las.

Assim também acontece nas relações com o próximo. Porque nelas as virtudes dirigem tomando por medida algo humano, isto é, a conveniência ou a dívida. Porém o dom toma nisto por regra ao mesmo Deus; de modo que, como já foi dito, pelo dom de fortaleza o homem empreende coisas difíceis usando do poder divino como seu, pela confiança, e igualmente se comunica com outro usando de Deus como de si mesmo, isto é, que execute como unido a Deus as coisas que convém nessas relações. Pelo qual o Senhor exorta a imitar a liberdade do Pai celestial, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons (Mt 5, 45). E porque esta comunicação das coisas divinas se chama piedade, por isso também o dom que toma a medida divina nas relações com os demais chama-se piedade.

Ainda que a virtude da piedade se exerça para com Deus, toma, nisto, algo de humano por medida, quer dizer, o benefício recebido de Deus; razão pela qual lhe somos devedores. Mas o dom de piedade toma, nisto, por medida algo divino: honrar a Deus, não porque sejamos seus devedores, senão porque Deus é digno de honra. Por este modo o mesmo Deus se dá honra a si mesmo.

O dom da piedade não é o mesmo que o da misericórdia, pois a misericórdia tende a aliviar as misérias dos próximos, porque estão unidos pelo sangue ou a amizade ou a semelhança da natureza, tomando em tudo por medida algo humano, como as demais virtudes. Porém o dom de piedade se move a remediar as misérias dos próximos por um motivo divino: porque são filhos de Deus ou estão dotados da semelhança divina. Por isso tem com mais propriedade o nome de piedade, que significa algo de divino.

— 3. Dist. 34, q. 3, a. 2

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