QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA
Os prêmios das bem-aventuranças
1º Os prêmios das três primeiras bem-aventuranças se tomam segundo aquelas coisas que alguns buscam na dita terrena; pois os homens buscam nas coisas exteriores, como nas riquezas e nas honras, certa excelência e abundância, coisas ambas incluídas no Reino dos céus, pelo qual consegue o homem a excelência e abundância de bens em Deus. Por isso o Senhor prometeu aos pobres de espírito o Reino dos céus.
Os homens ferozes e cruéis pretendem por meio de litígios e guerras adquirir para si a segurança, destruindo a seus inimigos; por isso o Senhor prometeu aos mansos possessão segura e tranqüila da terra dos viventes, pela qual se significa a estabilidade dos bens eternos.
Buscam os homens nas concupiscências e deleites do mundo ter consolo contra os trabalhos da vida presente; e por isso o Senhor prometeu a consolação da vida aos que choram.
2° As outras duas bem-aventuranças pertencem às obras da bem-aventurança ativa que são as obras das virtudes que ordenam o homem para com o próximo; das quais obras se retraem alguns pelo amor desordenado do bem próprio; e por isso o Senhor adjudica aqueles prêmios a estas bem-aventuranças pelas quais os homens se apartam delas. Pois alguns se apartam das obras de justiça não pagando suas dívidas, senão, mais bem, furtando o alheio, para enriquecer-se em bens temporais; daí que o Senhor prometeu fartura aos que têm fome de justiça. Apartam-se também, alguns, das obras de misericórdia, para não mesclar-se nas misérias alheias, mas o Senhor prometeu, aos misericordiosos, misericórdia, pela qual se livram de toda a miséria.
3º As duas últimas bem-aventuranças correspondem à felicidade ou bem-aventurança contemplativa; e por isso, segundo a conveniência das disposições que se supõem no mérito, se dão os prêmios. Porque como a limpeza do olho dispõe à visão clara, se promete a visão divina aos limpos de coração.
O ter paz consigo mesmo ou com os outros manifesta que o homem é imitador de Deus, que é Deus de união e de paz; e assim, se lhe outorga por prêmio a glória da filiação divina, que consiste na perfeita união com Deus por meio da sabedoria consumada.
4° Todos aqueles prêmios se consumarão perfeitamente na vida futura, porém, entretanto, também começa de algum modo nesta vida; porque o Reino dos céus pode entender-se como princípio da perfeita sabedoria, segundo o qual começa o espírito a reinar neles. A possessão da terra significa também o bom afeto da alma repousando pelo desejo na estabilidade da herança perpétua significada pela terra. Porém são consolados nesta vida, participando do Espírito Santo, que se chama Paráclito, isto é, Consolador. São saturados também nesta vida com aquele manjar, do qual diz o Senhor: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou (Jo 4, 34). Também nesta vida conseguem os homens a misericórdia de Deus. E igualmente, purificado o olho pelo dom de entendimento, Deus pode ser visto de alguma maneira nesta vida; assim como nesta vida são chamados, por sua vez, filhos de Deus os que pacificam seus movimentos aproximando-se à semelhança de Deus. No entanto, tudo isto se verificará mais perfeitamente na pátria.
-Iª IIæ, q. 59, a. 4 e a. 2 ad 3um