Quinta-Feira -- Jesus é preso,
ligado e conduzido a Jerusalém.
Comprehenderunt Iesum et ligaverunt eum – “Eles prenderam a Jesus e o
ligaram” (Jo 18, 12)
Sumário.
Imaginemos ver a Jesus, que, abandonado de seus discípulos, é
preso, ligado e levado a desoras e com grande tumulto pelas ruas de Jerusalém. Ao verem-No assim, todos que O veneraram, já O odeiam e se envergonham de O terem tido pelo Messias. Se nós, à vista de um Deus tão humilhado por nosso amor e para nosso ensino, ainda amarmos os bens fugazes da terra, ambicionarmos as honras e preeminências, não somos dignos do nome de cristãos.
I. O Redentor, sabendo que Judas se aproximava, acompanhado dos Judeus e dos soldados, levanta-se, banhado ainda no suor da agonia mortal. Com o rosto pálido, mas com o coração todo abrasado em amor,
vai-lhes ao encontro para se lhes entregar nas mãos, e vendo-os chegados perto, diz: Quem quaeritis? — “A quem buscais?” — Afigura-te, minha alma, que neste momento Jesus te pergunta também: Dize-me, a quem
buscas? Ah, meu Senhor, a quem poderei buscar senão a Vós, que descestes do céu à terra para me buscar e não me ver perdido?
Comprehenderunt Iesum, et ligaverunt eum — “Eles prenderam a Jesus e
o ligaram”. Ó céus, um Deus ligado! Que diríamos, se víssemos um rei
preso e ligado pelos seus servos? E que dizemos agora vendo um Deus
entregue às mãos da gentalha? Ó cordas bem-aventuradas! Vós que
ligastes o meu Redentor, ah! Liga-me a Ele, mas liga-me de tal modo que
nunca mais me possa separar de seu amor. — Considera, minha alma,
como um lhe liga as mãos, outro o injuria, mais outro o empurra, e o
Cordeiro inocente se deixa ligar e empurrar quanto quiserem. Não procura
fugir das mãos deles, não chama por auxílio, não se queixa de tantas
injúrias, nem mesmo pergunta por que é tratado assim. Eis, pois, realizada
a profecia de Isaías: Oblatus est quia ipse voluit, et non aperuit os suum;
sicut ovis ad occisionem ducetur (2) — “Foi oferecido, porque ele mesmo
quis, e não abriu a sua boca; ele será levado como uma ovelha ao
matadouro”.
Mas onde é que se acham os seus discípulos? Que fazem? Já não podendo
livrá-Lo das mãos de seus inimigos, ao menos que o tivessem
acompanhado para defenderem a inocência de Jesus perante os juízes, ou
sequer para o consolarem com a sua presença! Mas não; o Evangelho diz:
Tunc discipuli eius, relinquentes eum, omnes fugerunt (3) — “Então os
seus discípulos desamparando-O, fugiram todos”. Qual não devia ser a
tristeza de Jesus, vendo que até os seus discípulos queridos fugiam e O
desamparavam? Mas, ó céus, então o Senhor viu ao mesmo tempo todas
aquelas almas que, sendo por Ele mais favorecidas, haviam de abandoná-
Lo depois e de Lhe virar as costas.
II. Ligado como um malfeitor, o nosso Salvador entra em Jerusalém, onde poucos dias antes fora aclamado com tantas honras e louvores. Passa a desoras pelas ruas, entre lanternas e tochas, e tão grande é o alarido e
tumulto, que todos deviam pensar que se levava qualquer grande
criminoso. A gente chega à janela e pergunta: quem é que foi preso? e
respondem-lhe: Jesus, o Nazareno, que foi desmascarado como sendo um
sedutor, um impostor, um falso profeta e réu de morte. — Quais não
deviam ser então em todo o povo os sofrimentos de desprezo e
indignação, quando viram Jesus Cristo, acolhido primeiro como o Messias,
preso por ordem dos juízes, como impostor!
Ah! Como se trocou então a veneração em ódio, como se arrependeu
cada um de O ter honrado, envergonhando-se de ter honrado um
malfeitor, como se fosse o Messias! — Eis, pois, a que estado se reduziu o
Filho de Deus para nos mostrar o nada das honras e dos aplausos do
mundo! E como é que eu, apesar de ver um Deus tão humilhado e
injuriado por meu amor, como é que eu hei de viver tão amante dos bens
fugazes da terra, ambicionar as honras, as dignidades, as preeminências, e
não saber sofrer o mínimo desprezo? Ai de mim, pecador e soberbo!
Donde, ó meu Senhor, me pode vir tamanho orgulho, depois que mereci
tantas vezes o inferno? Meu Jesus, suplico-Vos pelos merecimentos dos
desprezos que sofrestes, dai-me a graça de Vos imitar. Proponho com o
vosso auxílio reprimir de hoje em diante todo o ressentimento e receber
com paciência, alegria e contentamento todas as humilhações, todas as
injúrias e todas as afrontas que me possam ser feitas. Proponho, além
disso, para Vos agradar, fazer todo bem possível a quem me despreza; ao
menos falarei sempre bem dele e rogarei por ele. Vós, ó meu Senhor,
pelas dores de Maria Santíssima, fortalecei estes meus propósitos e dai-
me a graça de Vos ser fiel.
(Prisão de Jesus)
