MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
5 DE JULHO
A imutabilidade de Deus
1. Existe em Deus uma maneira de ser ou perfeição, segundo a qual é imutável em sua natureza, como Ele mesmo atesta pelo Profeta Malaquias: Eu sou o Senhor, e não mudo (Ml 3, 6). Tudo o que se move adquire com seu movimento alguma coisa e chega àquilo ao que antes não chegava. Porém, sendo Deus infinito, e compreendendo em si mesmo toda a plenitude de perfeição de todo ser, nada pode adquirir, nem estender-se a nada onde antes não tocara. Por conseguinte, de nenhuma maneira é compatível com Ele o movimento.
É verdade que se diz no Livro da Sabedoria: A sabedoria é mais ágil que todo o movimento (Sb 7, 24). Porém se diz que a sabedoria é móvel por participação, em atenção a que esta Sabedoria difunde sua semelhança até o último dos seres; pois nada pode existir que não proceda em similitude da divina sabedoria, como de seu primeiro princípio efetivo e formal, ao modo com que também as obras de arte procedem da sabedoria do artista. Assim, pois, enquanto a semelhança da divina sabedoria procede gradualmente desde as criaturas superiores que mais participam de sua semelhança, até as coisas inferiores, que participam menos, se diz que há certa processão ou movimento da divina sabedoria às coisas; como se disséssemos que o sol baixa à terra, porquanto o raio de sua luz alcança e toca a terra.
Em sentido metafórico, usam-se estas palavras na Escritura: Aproximai-vos de Deus, e Ele se aproximará de vós (Tg 4, 8). Pois, assim como se diz que o sol entra em uma casa e sai dela, para indicar que seu raio chega até a casa, do mesmo modo se diz que Deus aproxima-se de nós ou afasta-se de nós para indicar que experimentamos influência de sua bondade ou nos separamos d'Ele.
- S. Th. Iª, q. 9, a. 1
II. Também nós devemos procurar, para constância da alma, sermos imutáveis no bem e não nos apartarmos do caminho da retidão, nem nos vergarmos pelas adversidades, nem nos deixar seduzir pela prosperidade. Porém, ah, somos excessivamente inconstantes nas santas meditações, nos afetos ordenados, na seguridade da consciência, na reta vontade. Ah!, quão subitamente nos mudamos do bem ao mal; da esperança ao temor injusto; e pelo contrário: do gozo à dor injusta; da taciturnidade à loquacidade; da circunspecção à leviandade; da caridade ao rancor ou à inveja; do fervor à secura; da humildade à vanglória ou à soberba; da mansidão à ira; da alegria e do amor espiritual ao carnal. E isso de tal modo que nunca permanecemos estáveis um só momento no mesmo estado, senão que somos constantes na inconstância, na infidelidade, na ingratidão, nos defeitos espirituais, na imperfeição, na perda de tempo, nas insensatezes, nos pensamentos e afetos impudicos. A instabilidade dos sentidos e dos membros exteriores acusa a mutabilidade dos afetos e dos movimentos interiores. Esforcemo-nos nestas coisas razoavelmente, e conduzamo-nos com igualdade e freqüentemente de um mesmo modo, isto é, com maturidade e benignidade no repouso e na maneira de andar, e em toda nossa vida.
- De Divinis Moribus