O RETORNO DO PARADIGMA MEDIEVAL
Estamos presenciando um momento crucial na História da civilização: a destruição criativa e dramática da velha ordem. Esse momento de crise e decadência é, em muitos aspectos, comparável a queda do Império Romano! Vou abordar as principais semelhanças em sua ordem cronológica:
1. A GRANDE ELABORAÇÃO DO IMPÉRIO: Assim como houve uma grande elaboração intelectual, tecnológica e estética antecedendo o auge do Império Romano, ocorreram também essas grandes elaborações antecedendo o auge dos Estados Unidos da América. A filosofia grega (incluindo desde os pré-socráticos até Aristóteles, passando por Sócrates e pela Academia de Platão), as inovações estéticas da escultura e poesia gregas, sua arquitetura simétrica monumental, assim como os avanços em navegações e estradas, pavimentaram o caminho para o advento e expansão de uma Roma imponente, com sua força militar insuperável de legiões e armas, a arquitetura romana baseada em grandes arcos e domos majestosos (uma arquitetura de grandes espaços redondos, globulares), o Direito romano (que até hoje exerce sua influência nos países de idioma de raiz latina) e seu poder inconteste. Da mesma maneira, o Iluminismo e a tradição liberal (com destaque para John Locke e a revolução gloriosa no coração da Grã-Bretanha), assim como o grande poder marítimo e militar do Império Britânico, a Revolução Industrial e seus avanços, o advento da arte moderna e pós-moderna altamente liberal, indicaram o caminho para o surgimento e ascenção dos EUA. Nada disso retira o mérito da história americana, mas é preciso reconhecer que houve uma série de elaborações éticas, intelectuais e tecnológicas neste processo. Os próprios EUA foram fundados em um vigoroso e corajoso espírito libertário de rebelião contra a tirania do Império Britânico, autodeterminação e conquista da Liberdade e da Felicidade. Os americanos tiveram de enfrentar diversos momentos de transformação, revoltas, guerras civis e inimigos externos;
2. A CRISE DA INFLAÇÃO: O denário romano foi extremamente diluído ao longo de 400 anos, perdendo em sua liga os metais preciosos e também perdendo seu valor e poder de compra, e logo Roma atingiu o limite do seu modelo de civilização, sua expansão encontrou uma contradição interna insolúvel na absorção inevitável dos povos bárbaros, os poderosos se tornaram cada vez mais corruptos e a degeneração moral prevaleceu em toda a sociedade, assim foi a longa e amarga queda de Roma, não do dia para noite em uma invasão heróica dos bárbaros do norte, mas sim ao longo de décadas e séculos de corrupção e perda de valores. O mesmo está acontecendo agora, em um ritmo mais acelerado devido a modernidade e seu quadro altamente tecnológico: o dólar perde valor de maneira acelerada, a dívida americana atinge patamares impagáveis e cada vez mais dinheiro é necessário imprimir para pagar os juros e o serviço da dívida, aumentando a inflação e reduzindo o poder de compra, a qualidade de vida e os incentivos de poupança e economia de longo prazo na sociedade, enquanto as famílias enfrentam inúmeras crises morais advindas desse cenário de decadência econômica. Uma sociedade imediatista e desesperada ecoará o discurso do "Carpe Diem", o grande conselho em tempos de decadência: Colha o Dia. Esse conselho latino era repetido entre os romanos durante os últimos tempos do império. Tudo ruirá, Carpe Diem, diziam eles.
3. A DESTRUIÇÃO CRIATIVA E O PARADIGMA MEDIEVAL: Durante a longa queda de Roma, ocorreu uma nova elaboração religiosa, o advento do cristianismo, cuja mensagem tem em seu cerne uma proposta ética e moral em oposição a decadência de uma sociedade cada vez mais cruel e pervertida, luxuriosa e imediatista, mergulhada em vícios. Enquanto os povos marginalizados sofriam com os altos impostos de Roma, a pax romana mantida com força militar implacável, a sociedade no coração do império era cada vez mais fútil, arrogante, cruel e sexualizada, principalmente nas altas classes; então Jesus Cristo surgiu com sua mensagem oposta ao mundo, a chamada "loucura para os homens e loucura para o mundo", trazendo a Ética do Afeto (inclusive se opondo à Moral da Lei do Velho Testamento, tão limitante e incapaz de sondar o espírito dos homens e seus corações), a empatia pelo próximo, o comedimento, a simplicidade e sinceridade como valores morais elevados, comparáveis apenas com o advento de valores semelhantes no Budismo, no extremo oriente (o processo de evolução da civilização no extremo Oriente foi bastante diversa do Ocidente antes da globalização industrial). Quando Roma caiu, Jesus Cristo permaneceu em pé e foi o grande signo amálgama da cultura medieval, marcada pela fragmentação do antigo império em milhares de feudos e pequenos reinos; a única instituição que arrogou para si alguma representatividade transnacional foi a Igreja Católica, mas logo sofreu seu próprio processo de fragmentação com o advento da Reforma protestante em meados da Idade Média.
O que estamos presenciando hoje é fundamentalmente a mesma coisa: em termos gerais, uma sociedade altamente individualista, pouco empática, hedonista e imediatista, em um quadro geral de inflação constante e desestímulo a poupança de longo prazo. Então, uma nova elaboração revoltosa e vigorosa surge no seio deste mundo: as tecnologias descentralizadas, revolucionando a informação e a economia e retirando o poder dos Estados, bancos internacionais e Big Techs. Enquanto o mundo estoura em guerras, essa elaboração das tecnologias descentralizadas surte seus efeitos de maneira acelerada e incidiosa, imparável. Uma nova ordem emergirá do caos e da destruição, um mundo em retalhos e fragmentos de micro-poderes, enquanto os grandes Estados colapsam sob seu próprio peso, o indivíduo se tornará cada vez mais livre e soberano.