MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA ILUMINATIVA

27 DE AGOSTO

A prudência

I. A sabedoria é a prudência do homem (Pr 10, 23). É sábio em algum gênero quem considera a causa suprema nesse mesmo gênero. No gênero dos atos humanos a causa suprema é o fim comum de toda a vida humana, e a este fim se dirige a prudência; pelo qual assim como o que raciocina bem por relação a algum fim particular, por exemplo, à vitória, diz-se ser prudente não absolutamente, senão neste gênero, isto é, em assuntos bélicos, assim também o que raciocina bem acerca de todo o bem-viver, diz-se ser prudente em absoluto. Logo é evidente que a prudência é a sabedoria nas coisas humanas.

II. A prudência não pode existir nos pecadores. A prudência se entende de três maneiras. Existe uma falsa ou chamada assim por semelhança porque sendo prudente o que dispõe bem as coisas que devem executar-se para um fim bom, quando alguém que se propõe um fim mal põe algumas coisas adequadas para lograr o fim, diz-se que possui uma prudência falsa, porque aceita por fim o que não é verdadeiramente bom, senão por semelhança, como se diz de alguém que é um bom ladrão. Neste sentido pode, por semelhança, chamar-se prudente o ladrão que emprega meios convenientes para roubar.

Desta prudência diz o Apóstolo aos romanos: A prudência da carne é morte (Rm 8, 6), aludindo àquilo que constitui o último fim no deleite carnal.

A segunda prudência é verdadeira porque encontra os meios adequados ao fim verdadeiramente bom, porém é imperfeita por duas razões: primeira, porque o bem que toma por fim não é o fim comum de toda a vida humana, senão de algum negócio especial; por exemplo, quando se encontra os meios adequados para negociar ou para navegar, diz-se prudente negociante ou navegante; segunda, porque é deficiente no ato principal da prudência, por exemplo, quando se dá um bom conselho e julga bem mesmo das coisas que correspondem a toda a vida, porém não dá um preceito eficaz.

A terceira prudência, verdadeira e perfeita, é a que aconselha retamente para o bom fim de toda a vida, e ademais julga e manda. Está é a única que se chama prudência em absoluto, a qual não pode encontrar-se nos pecadores. Ao contrário, a primeira prudência se dá unicamente nos pecadores; a prudência imperfeita é comum aos bons e aos maus, principalmente aquela que é imperfeita por razão de algum fim particular; e aquela que é imperfeita por defeito do ato principal, tampouco se dá senão nos maus.

-S. Th. IIª IIæ, q. 47, a. 2 e 13

III. Cícero acertadamente divide a prudência em memória das coisas passadas, inteligência das presentes e previsão das futuras. Porque a prudência versa acerca das ações particulares, é necessário tomar os princípios do mesmo gênero, a fim de que a pessoa prudente raciocine retamente sobre as coisas que é necessário fazer, pela experiência de outros feitos. Por conseguinte, necessita da experiência e do tempo, a fim de prever as coisas futuras por aquelas que existiram e que retém na memória, e pelas coisas que ao presente contempla a inteligência; pois pela memória evoca à alma as coisas que foram; pela inteligência contempla as que são, e pela previsão se vê uma coisa futura antes de realizar-se.

-3, Dist., XXIII, q. III, a. 1

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