SEXTA-FEIRA DA OITAVA DE CORPUS CHRISTI
Que graça confere a Eucaristia
1º O sacramento da Eucaristia tem por si mesmo a virtude de conferir a graça, e ninguém tem a graça antes de recebê-lo, a não ser por algum desejo, seja expresso por si mesmo, como nos adultos, seja pela Igreja, como nas crianças. 29 Sendo assim, devido à eficácia de virtude do mesmo, resulta que também pelo desejo deste sacramento alguém pode conseguir a graça que o vivifica espiritualmente. Sucede, ademais, que quando se recebe realmente este sacramento se aumenta a graça e se aperfeiçoa a vida espiritual, porém de modo distinto ao sacramento da Confirmação, no qual se aumenta e aperfeiçoa a graça para resistir aos ataques exteriores dos inimigos de Cristo, pois pela Eucaristia se aumenta a graça e se aperfeiçoa a vida espiritual, para que o homem seja perfeito em si mesmo por sua união a Deus.
2° Este sacramento confere espiritualmente graça com a virtude da caridade. Por isso São João Damasceno 30 compara este sacramento ao carvão que viu Isaías (Is cap. 6). Pois o carvão não é simples madeira, senão lenha, unida ao fogo, e assim também o pão da Comunhão não é simples pão, senão que está unido à Divindade. Porém, como diz São Gregório 31, "o amor de Deus não é ocioso; porque produz grandes coisas quando existe". E por conseguinte, por este sacramento, segundo sua própria virtude, não somente se confere o hábito da graça e da virtude, senão que também se excita a agir, segundo aquilo: O amor de Cristo nos constrange (2Cor 5, 14). Daí que pela virtude este sacramento se fortifique a alma espiritualmente, porquanto se deleita espiritualmente, e se embriaga, de certo modo, com a doçura da bondade divina, como diz o Cântico dos Cânticos: Comei, amigos, e bebei, inebriai-vos caríssimos (5, 1).
3º Posto que os sacramentos produzem a saúde que significam, diz-se, por certa analogia, que neste sacramento se oferece o corpo pela saúde do corpo, e o sangue pela saúde da alma, ainda que um e outro produzam a saúde dos dois, pois todo o Cristo se contém sob ambos. E ainda que o corpo não seja o sujeito imediato da graça, o efeito dela redunda, no entanto, da alma ao corpo, no presente enquanto exibimos nossos membros como instrumentos da justiça de Deus, e no futuro quando nosso corpo venha a alcançar a incorrupção e a glória da alma.
S. Th., IIIª, q. 69 ad 1
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Rodapé
29. Para aclarar este ponto e evitar interpretações torcidas, convém fazer algumas advertências. Não há dúvida de que a recepção real deste sacramento seja necessária para a salvação com necessidade de preceito, tanto divino como eclesiástico, seja em caso de morte, seja muitas vezes na vida. A existência do preceito consta no Evangelho de São João c. VI, e nas leis legítimas da Igreja que nesta matéria obrigam sob pena grave em determinadas circunstâncias. Ao contrário, não é necessária a dita recepção real como necessidade de meio, nem tampouco como voto propriamente dito. Pois só é necessário como necessidade de meio para a salvação o que se requer como meio para a primeira justificação, surja isso da necessidade da natureza ou duma positiva instituição de Deus. Porém a Eucaristia não foi instituída regularmente para conferir a justificação primeira, mas antes, a supõe, pois é sacramento de vivos e não de mortos, e, ai daquele que em pecado mortal se aproxime para recebê-lo! Logo, não pode ser necessária a recepção real do mesmo como necessidade de meio para a salvação.
Porém se a recepção do mesmo sacramento não é necessária nem realmente nem em desejo, o é, ao contrário, o res sacramenti, o efeito do sacramento da Eucaristia para alcançar a salvação. Porque o meio necessário para a salvação é a incorporação a Cristo que tem lugar na primeira justificação, justificação que formalmente consiste na primeira graça e na caridade habitual, que é o mesmo vínculo pelo qual nos unimos como membros vivos a Cristo e a seu corpo místico. É assim que o efeito deste sacramento é precisamente a unidade perfeita do corpo místico, isto é, a união perfeita da alma a Cristo e a seus membros pela caridade. Logo, o efeito deste sacramento (res sacramenti) é necessário como necessidade de meio, seja na realidade seja no desejo implícito ou explícito. Neste sentido temos de entender as palavras de Santo Tomás que motivaram esta nota.
30. Orth. Fid., I. IV, c. 14.
31. Hom. Pent. 30 in Evangelium.