MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
6 DE JULHO
As utilidades derivadas da consideração de Deus como Criador
1° Por essa meditação, o homem se dirige ao conhecimento da majestade divina; porque o artista se sobressai sobre sua obra. E como Deus é artífice de todas as coisas, segue-se que Ele é mais eminente que todas elas. Por conseguinte, qualquer coisa que pode ser conhecida ou pensada, é menor que o mesmo Deus. Deus é grande e ultrapassa toda a nossa ciência (Jó 36, 26).
2° Por isso o homem se inclina a dar graças. Pois sendo Deus criador de todas as coisas, é certo que tudo o que somos e tudo quanto possuímos procede de Deus, como diz o Apóstolo: Que tens tu, que não tenhas recebido? (1Cor 4, 7). E o Rei Profeta: Do Senhor é a terra e tudo que ela encerra (Sl 23, 1). Por conseguinte, devemos dar-lhe ações de graças.
3º O homem é induzido à paciência nas adversidades. Porque, ainda que toda criatura proceda de Deus, e por isso seja boa segundo sua natureza, se em algo, no entanto, nos prejudica ou causa pena, devemos crer que essa pena procede de Deus, mas não a culpa; pois nenhum mal procede de Deus, senão o que se ordena ao bem. E, portanto, se toda pena que o homem sofre procede de Deus, deve-se suportar pacientemente. As penas purificam os pecados, humilham os réus, impelem os bons ao amor de Deus. Por isso dizia Jó: Se nós recebemos os bens da mão de Deus, por que não havemos de receber também os males? (Jó 2, 10).
4º Esta meditação nos leva a usar retamente as coisas criadas. Porque devemos utilizar as criaturas para o que foram feitas por Deus. Mas as coisas foram feitas com dois fins: para a glória de Deus, Tudo fez o Senhor para si mesmo (Pr 16, 4), isto é, para sua glória; e para utilidade nossa: Essas coisas que o Senhor teu Deus criou para Servir a todas as gentes, que estão debaixo do céu (Dt 4, 19). Devemos, portanto, usar das coisas para a glória de Deus, a fim de agradar-lhe com isso, e para utilidade nossa, isto é, de modo que, usando delas, não cometamos pecado. Tudo é teu, e o que recebemos da tua mão, isso mesmo te oferecemos (1Cr 29, 14). Logo, tudo o que tens, ciência, formosura, tudo deves referi-lo e usá-lo para a glória de Deus.
5° Nos leva ao conhecimento da dignidade humana. Porque Deus fez todas as coisas para o homem, como se diz no Salmo: Sujeitaste todas as coisas debaixo de seus pés (Sl 8, 8), e o homem é mais semelhante a Deus que todas as criaturas, excetuando os anjos. Por isso se lê no Gênesis: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Isto não o disse do céu nem das estrelas, senão do homem; porém, não enquanto corpo, senão enquanto alma, que possui vontade livre e é incorruptível, no que se assemelha a Deus mais que as demais criaturas.
Devemos, pois, considerar o homem, depois dos anjos, mais digno que as demais criaturas, e não diminuir de nenhuma maneira nossa dignidade pelo pecado e pelo apetite desordenado das coisas corporais, que são mais vis que nós e foram criadas para nosso serviço; antes, bem devemos conduzir-nos do modo que Deus nos fez. Porque Deus criou o homem para que presidisse a todas as coisas que estão na terra, e para que se sujeitasse a Ele. Devemos, portanto, dominar e presidir às coisas, porém submeter-nos a Deus, obedecer-lhe e servir-lhe, e com isto chegaremos ao gozo de Deus.
- In Symbol