MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
21 DE JULHO
O que peca por malícia peca mais gravemente que o que peca por paixão
O pecado que por cálculo se comete, por este mesmo merece pena mais grave, segundo aquilo de Jó: Feriu-os como ímpios à vista de todos. Esses que, como de propósito, se apartaram d'Ele (Jó 34, 26). E assim como o castigo não aumenta senão pela gravidade da culpa; logo o pecado se agrava por ser de propósito ou com malícia certa.
O pecado que procede de malícia certa é mais grave que o que se comete por paixão, por três razões:
Primeiro, porque, consistindo principalmente o pecado na vontade, quanto mais próprio da vontade seja o movimento do pecado, tanto mais grave será o pecado em igualdade de circunstância; porém, quando se peca por malícia certa, o movimento do pecado é mais próprio da vontade que por si mesma se move ao mal, que quando se peca por paixão, quer dizer, como por certo impulso extrínseco a pecar; e assim o pecado, pelo mesmo que procede de malícia, agrava-se tanto mais quanto mais veemente for a malícia, e, sendo por paixão, tanto mais se diminui quanto mais violenta for a paixão.
Segundo, porque a paixão, que inclina a vontade ao pecado, passa rápido; e assim o homem retorna prontamente ao bom propósito, arrependendo-se do pecado; porém o hábito com que o homem peca por malícia é uma qualidade permanente; e, portanto, quem peca por malícia, peca com mais persistência. Pelo que o Filósofo compara ao intemperante, que sofre continuamente; e ao incontinente, que peca por paixão, com o que padece a intervalos.
Terceiro, porque quem peca por malícia certa está maldisposto quanto ao mesmo fim, que é o princípio no operável; e assim seu efeito é mais perigoso no operável; e assim seu efeito é mais perigoso que o daquele que peca por paixão, cujo propósito tende a um bom fim, ainda quando este propósito se interrompa transitoriamente por causa da paixão. Porém, sempre o defeito de princípio é péssimo; e, portanto, é evidente que é mais grave o pecado que procede da malícia que o que procede da paixão.
Ademais, o impulso que procede da paixão é como por defeito exterior da vontade; mas pelo hábito a vontade é inclinada como que de dentro. O que peca por paixão peca, certamente, escolhendo, porém não por escolha, toda vez que a escolha não é nele o primeiro princípio do pecado, senão que é induzido pela paixão a escolher o que, livre de paixão, não escolheria. Mas o que peca por malícia certa, escolhe de per se o mal e, portanto, a escolha que há nele é princípio de pecado, e por isto se diz que peca por escolha.
-S. Th. Iª IIæ, q. 78, a. 4