Sábado -- Terceira dor de Maria

Santíssima – Perda de Jesus no templo.

Ecce pater tuus et ego dolentes quaerebamus te – “Eis que teu pai e eu Te

andávamos buscando cheios de aflição” (Lc 2, 48)

Sumário.

A dor de Maria pela perda de Jesus foi sem dúvida uma das mais acerbas; porque ela então sofria longe de Jesus, e a humildade fazia-lhe

crer que o Filho se tinha apartado dela por causa de alguma negligência sua.

Sirva-nos esta dor de conforto nas desolações espirituais; e ensine-nos o modo de buscarmos a Deus, se jamais para nossa desgraça viermos a perdê-Lo por nossa culpa. Lembremo-nos, porém, de que quem quiser achar a Jesus, não O deve buscar entre os prazeres e delícias, mas no pranto, entre as cruzes e mortificações, assim como Maria o procurou.

I. Quem nascer cego, pouco sente a pena de ser privado de ver a luz do

dia; mas quem noutro tempo teve a vista e gozou a luz, muita pena sente

em se ver dela privado. E assim igualmente as almas infelizes que, cegas

pelo lodo desta terra, pouco têm conhecido a Deus, pouco sentem a pena de O não acharem. Ao contrário, quem, iluminado pela luz celeste, foi

feito digno de achar no amor a doce presença do supremo Bem, ó Deus!

Que tristeza sente em ver-se dela privado.

Vejamos portanto o muito que a Maria, acostumada a gozar

continuamente a dulcíssima presença de seu Jesus, devia ser dolorosa a

terceira espada que a feriu, quando, havendo-O perdido em Jerusalém,

por três dias se viu dele separado. ― Alguns escritores opinam que esta

dor não foi somente uma das maiores que teve Maria na sua vida, mas

que foi em verdade a maior e mais acerba. E com razão, porque então ela

não sofria em companhia de Jesus, como nas outras dores; e porque a sua

humildade lhe fazia crer que Jesus se tinha afastado dela por alguma

negligência no seu serviço. Por esta razão aqueles três dias lhe foram

excessivamente longos e se lhe afiguraram séculos, cheios de amargura e

de lágrimas.

Num quem diligit anima mea vidistis? (1) ― “Vistes porventura àquele a

quem ama a minha alma?” É assim que a divina Mãe, como a Esposa dos

Cantares, andava perguntando por toda a parte. E depois, cansada pela

fadiga, mas sem O ter achado, oh, com quanto maior ternura não terá dito

o que disse Ruben de seu irmão: Puer non comparet, et ego quo ibo? (2)

― “O menino não aparece, e eu para onde irei?” O meu Jesus não

aparece, e eu não sei que mais possa fazer para O achar; mas aonde irei

sem o meu tesouro? Ah, meu filho dileto! Cara luz de meus olhos: faze-me

saber onde estás, a fim de que eu não ande mais errando e buscando-Te

em vão. Numa palavra, afirma Orígenes que pelo amor que esta santa

Mãe tinha a seu Filho, padeceu mais nesta perda de Jesus que qualquer

outro mártir no tormento que o privou da vida.

II. Esta dor de Maria, em primeiro lugar, deve servir de conforto àquelas

almas que estão desoladas e não gozam a doce presença de seu Senhor,

gozada em outros tempos. Chorem, sim, mas chorem com paz, como

chorou Maria a ausência de seu Filho. Não temam por isso de terem

perdido a divina graça, animando-se com o que disse Deus mesmo a Santa

Teresa: “Ninguém se perde sem o conhecer; e ninguém fica enganado sem

querer ser enganado”. ― Se o Senhor se ausenta dos olhos da alma que o

ama, nem por isso se ausenta do coração. Esconde-se muitas vezes para ser por ela buscado com mais desejo e amor. Mas quem quer achar a

Jesus, é preciso que o busque, não entre as delícias e os prazeres do

mundo, mas entre as cruzes e mortificações, como o buscou Maria:

Dolentes quaerebamus te ― “Nós Te andávamos buscando cheios de

aflição”.

Além disso, neste mundo não devemos buscar outro bem senão Jesus. Jó

não foi, por certo, infeliz quando perdeu tudo o que possuía neste mundo,

até descer a um monturo. Porque tinha consigo Deus, também então era

feliz. Verdadeiramente infelizes e miseráveis são aquelas almas que

perderam a Deus. Se, pois, Maria chorou a ausência do Filho, quanto mais

deveriam chorar os pecadores que perderam a divina graça, e aos quais

Deus diz: Vos non populus meus, et ego non ero vester (3) ― “Vós não

sois meu povo, e eu não serei mais vosso”.

Mas a maior desgraça para aquelas pobres almas, diz Santo Agostinho, é

que, se perdem um boi, não deixam de procurá-lo; se perdem uma ovelha,

não poupam diligência para achá-la; se perdem um jumento, não têm

mais repouso; mas se perdem o sumo Bem, que é Deus, comem, bebem e

ficam quietos. ― Ah, Maria, minha Mãe amabilíssima, se por minha

desgraça eu também perdi a Jesus pelos meus pecados, rogo-vos, pelos

méritos das vossas dores, fazei que eu depressa O vá buscar e O ache,

para nunca mais tornar a perdê-Lo em toda a eternidade.

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