MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
28 DE JULHO
A duração da contrição
1. A contrição deve durar até o fim da vida.
Na contrição existe uma dupla dor: uma da razão, que é a detestação do pecado cometido; outra da parte sensitiva, que é conseqüência daquela. Para as duas o tempo da contrição é o estado de toda a vida presente. Enquanto ainda se está em estado de viandante, detesta os inconvenientes que lhe retardam ou impedem chegar ao término do caminho; e como pelo pecado passado se retarda nossa marcha para Deus, porque não pode recuperar-se o tempo que estava destinado para correr, é necessário que sempre durante esta vida persista o estado de contrição, quanto à detestação do pecado. O homem deve sempre condoer-se de haver pecado; porque, se lhe agrada haver pecado, por isso mesmo incorreria já em pecado, e perderia o fruto do perdão.
O mesmo deve-se dizer da dor sensível, que é inspirada pela vontade como uma pena; porque se o homem ao pecar mereceu pena eterna, e pecou contra Deus eterno, depois que a pena eterna foi comutada em pena temporal, deve conservar em si uma dor eterna, quer dizer, durante todo o estado desta vida. E por isso diz Hugo de São Vitor que Deus, ao absorver da culpa e da pena eterna o homem, ata-o com o vínculo de uma detestação perpétua do pecado. A dor de contrição corresponde à culpa por parte da aversão, da qual recebe certa infinidade; pelo que também a contrição deve perdurar sempre.
A penitência interior, com a qual nos doemos do pecado cometido, e também a penitência exterior, com a qual se dão sinais exteriores de dor, pertence ao estado dos incipientes, quer dizer, dos que recentemente retornaram do pecado. Porém a penitência interior se dá também nos que já progrediram e nos perfeitos, segundo aquilo do Salmo: Preparou elevações no seu coração, neste vale de lágrimas (SI 83, 7). Por isso dizia o Apóstolo: Não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus (1 Cor 15, 9).
II. De que modo deve a contrição ser contínua.
Como a contrição é, por um lado, certo desagrado experimentado pela razão, sendo um ato da virtude de penitência, nunca pode ser superflua, nem quanto a sua intensidade nem quanto a sua duração, senão unicamente no caso de que o ato de uma virtude impeça o ato de outra mais necessária em um momento. Pelo que quanto mais continuamente pode o homem permanecer nos atos desse desagrado, tanto melhor é, com tal razão que a seu tempo se dedique aos atos das outras virtudes, segundo convenha.
Porém as paixões podem ter algo de mais e de menos, quanto à sua intensidade e quanto à sua duração. E, por conseguinte, assim como a paixão da dor que a vontade ordena deve ser moderada em sua intensidade, assim deve sê-lo em sua duração, a não ser que, se se prolonga em demasia, caia o homem na desesperação ou na pusilanimidade e em outros vícios semelhantes.
-4, Dist., XVII, q. 2