TERÇA-FEIRA DAS ROGATIVAS
A oração dominical
Possui a oração dominical cinco excelências que se requerem na oração. Pois a oração deve ser confiada, reta, ordenada, devota e humilde.
Confiada, isto é, que aproximemo-nos confiadamente do trono da graça (Hb 4, 16); que, ademais, não desfaleça na fé, como diz a Escritura: Mas peça-a com fé, sem nada hesitar (Tg 1, 6). Esta oração dominical é seguríssima pois foi composta por nosso advogado, que é demandante sapientíssimo, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2, 3). Por isso diz São Cipriano: "Tendo a Cristo por advogado de nossos pecados ante o Pai, utilizemos as palavras de nosso advogado, quando pedimos por nossos delitos". ¹⁶
Mais segura aparece, porque quem nos ensinou a orar escuta a oração com o Pai, segundo aquilo do Profeta: Invocar-me-á, e eu o ouvirei (SI 90, 15). Por isso disse São Cipriano: "É uma oração amiga, familiar e devota a do que roga ao Senhor com sua oração. Pelo qual nunca nos retiramos sem fruto dessa oração, pois por ela se perdoam as faltas veniais".¹⁶
Nossa oração deve ser reta, quer dizer, que o que ora deve pedir a Deus o que convém. Muitas vezes não é escutada a oração, porque se pedem coisas inconvenientes. É muito difícil saber o que é mister pedir, como é muito difícil saber o que se há de desejar, como diz o Apóstolo: Não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas o mesmo Espírito ora por nós (Rm 8, 26). Pois se Cristo é quem dá o Espírito Santo, a Ele lhe corresponde ensinar o que nos convém pedir. Logo se pedem retissimamente as coisas que Ele mesmo nos ensinou a pedir.
A oração deve ser ordenada como o desejo, pois a oração é intérprete do desejo. A ordem devida é que nos desejos e orações prefiramos o espiritual ao carnal, o celestial ao terreno. Isto mesmo nos ensinou o Senhor nesta oração, na que primeiro se pedem os bens celestiais e depois os terrenos.
A oração deve ser devota, porque a suavidade da oração faz com que o sacrifício desta seja aceito por Deus. Invocando o teu nome, levantarei as minhas mãos. Como de banha e de gordura será saciada a minha alma (SI 62, 5). Mas a devoção se debilita muitas vezes por conta da prolixidade da oração; por isso o Senhor ensinou a evitar a prolixidade supérflua da oração nestas palavras: Nas vossas orações não useis muitas palavras (Mt 6, 7). E Santo Agostinho diz: "Longe da oração o muito falar, por isso o Senhor instituiu esta breve oração. A devoção é resultante da caridade, que é o amor de Deus e do próximo, na que se inspira esta oração; porque para indicar o amor divino, chamamos Pai a Deus; para assinalar o do próximo, oramos comumente por todos dizendo: Pai Nosso, e perdoai-nos as nossas dívidas; ao que nos incita o amor do próximo".
A oração deve ser humilde, como se diz no Salmo: Atendeu à oração dos humildes (SI 101, 18); e em São Lucas por ocasião do fariseu e do publicano (Lc 16, 10 e s.); e também, em Judite: Sempre te agradou a súplica dos humildes e dos mansos (9, 16). Essa humildade tem seu lugar nesta oração; porque existe verdadeira humildade quando não se presume em nada de suas forças, senão que tudo espera alcançá-lo da virtude divina.
-In Orat. Dominic.
Rodapé:
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¹⁵ De Orati Dom.
¹⁶ De Orati Dom.