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Você não é o que pensa

Percebi recentemente que o pensamento não é algo que a gente controla como um todo, não é totalmente voluntário. Quando nos damos conta ele já está ocorrendo e nos indicando coisas que podem ser até opostas as nossos princípios e desejos mais fundamentais.

Isso indica que o pensamento é uma voz, um filme, um som ou uma sensação que ocorre automaticamente na nossa mente, mas que não corresponde à nossa identidade, mas somente à reproduções e associacoes das nossas experiências.

Portanto, os pensamentos, mesmo que tenham a nossa voz, não é quem somos e não é a nossa consciência, nós somos os observadores internos desses pensamentos e os que estão sempre direcionando que eles fluam para a direção que desejamos.

Dessa forma, mesmo que em alguns momentos você use a voz mental para pensar em primeira pessoa, ou seja, para tentar lembrar de algo, para fazer cálculos ou para organizar informações, esse estado sequer corresponde ao todo do pensamento, já que você também pode conversar internamente com o seu próprio pensamento para chegar a uma conclusão (em segunda pessoa), e até, apenas prestar atenção e guiar externamente o seu pensamento, tal como um jogador avaliando e tomando decisões ao observar a trama de um jogo (3ª pessoa).

Mas, ao que percebo, muitas pessoas residem e se identificam apenas no primeiro grau, apenas no pensamento em primeira pessoa. Ou seja, a mente repete o que elas vêem na TV, na internet ou tocando na rádio, e elas assumem isso como a própria crença e gosto delas, sem nem observar se realmente aquilo faz sentido ou se gostam de fato.

Mas, de forma ou de outra, todos nós passamos por uma fase de crescimento sem muito pensamento crítico, autoavaliação e um certo afastamento do que surge na mente, e, nessa fase inicial de desenvolvimento, muitas coisas certamente acabaram sendo absorvidas de forma que até hoje nunca tenhamos nos dado conta delas propriamente. Acabamos absorvendo muitas coisas externas como traço de personalidade que se reavaliassemos com mais calma talvez até notariamos que não é um pensamento originalmente nosso, mas vindos até de pessoas a nossa volta.

Logo, o ponto central que observei disso tudo é que tendemos a nos limitar a nossa própria estrutura e narração interna de pensamento, e com isso, tanto tomamos decisões erradas ou desconexas sem perceber, como até nos restringimos de perceber as coisas importantes por criarmos filtros com base nos pensamentos que ocorrem, tal como acontece quando menosprezamos algum momento importante, ou o que alguém nos diz, por pensarmos automaticamente algo como: "mas eu já sei como é", "já sei como vai ser" ou "não entendo o ponto disso, então não faz sentido".

eh citacao ou vc foi concluindo?

isso é uma das ideias basicas da semiotica, o 'train of thought'. pensamos em algo que age como um signo que leva a mente a um referente. Esse referente age como outro signo, que leva a mente a outro referente... E assim por diante.

E raciocinar é sair do automatismo natural da mente, que nunca fica parada, e analisar a logica dessas conexões que nem sempre são corretas. Ao entender os passos de um raciocinio e explicita-lo em detalhes, frequentemente aparecem outras inspirações pra continua-lo.

Uma implicação é 'se ocupar, pois mente ociosa pensa besteira'.

Outra questão é a criatividade. Existem realmente pensamentos originais "primeiridades", ou são todas combinações inconscientes de signos anteriores, o resultado de um 'train of thought' inconsciente, 'terceiridades' que emergiram?

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Discussion

Foi constatando a partir de diversas fontes e de mim mesmo, fiz anotações e, por fim, desenvolvi uma parte da minha conclusão ao fazer esse texto.

Tenho consciência de que o nosso formato de pensamento não se afasta muito dos autocompletes que as próprias IAs tem como base hoje em dia, mas não só diretamente com base em palavras, mas também em imagens mentais e outras sensações envolvidas.

Creio que até raciocinar pode ser uma tarefa automática, pois estamos acostumados a refletir. Esmiuçar o raciocínio é que geralmente não é automático.

Em relação a 'se ocupar para não pensar besteira', creio que dependa mais do tipo de tarefas e atividades a pessoa tem, pois quem é da área criativa geralmente precisa desse recurso de devaneio para ter idéias mais fluidas.

E quanto a criatividade mental em si, creio que depende muito do propósito dela... Pois há criações mentais mais soltas, criações mentais mais pensadas e criações mentais mais amplas. Você pode elaborar, por exemplo, um texto contínuo diretamente do que te vem a cabeça, pode também combinar o que te vem à cabeça com uma reflexões para amadurecer o que você quer retratar, e pode também pensar de forma mais afastada e refletir o contexto do que está sendo pensado para ter um panorama melhor do que vai ser escrito.