MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA ILUMINATIVA

4 DE SETEMBRO

Deve-se orar sem interrupção

Importa orar sempre e não cessar de o fazer (Lc 18, 1).

A oração pode ser considerada em si mesma e em sua causa.

A causa da oração é o desejo da caridade, da qual deve proceder a oração, e que deve ser em nós contínua, seja em ato, seja virtualmente; porque a virtude deste desejo permanece em tudo o que fazemos por caridade; e como devemos fazer tudo para a glória de Deus, por isto a oração deve ser contínua. Pelo que diz Santo Agostinho: "Na fé, na esperança e na caridade oramos sempre com desejo contínuo".

Porém a oração mesma, considerada em si, não pode ser contínua, porque é necessário ocupar-se em outras obras; mas como diz Santo Agostinho: "A certas horas e em certos intervalos oramos a Deus mesmo com palavras, para que por aqueles sinais de coisas nós percebamos o quanto estamos adiantados neste desejo, conheçamo-nos a nós mesmos e nos excitemos mais vivamente a fazer isto".

Porém a quantidade de cada coisa deve ser proporcionada ao fim, como a dose de um medicamento à saúde. Por isso também é conveniente que a oração dure tanto quanto é útil para excitar o fervor do desejo interior; porém quando excede a esta medida, de tal modo que não possa prolongar-se sem tédio, a oração não deve prolongar-se mais.

Sobre isto comenta Santo Agostinho: "Diz-se que os irmãos no Egito fazem freqüentes orações, porém estas muito breves e como certa jaculatórias rápidas; para que a intenção, vigilantemente sustentada e necessária ao que ora muito, não se desvaneça e embote pela excessiva detenção".

Assim, pois, ora-se continuamente, seja pela perseverança do desejo, seja porque não suspende o orar em horas determinadas, seja pelo efeito, ou naquele mesmo que ora, o qual permanece, mesmo depois da oração, mais devoto, ou também em outro, como quando alguém por seus benefícios induz a um outro a que ore por ele, mesmo quando o mesmo cesse de orar e descanse.

Certamente se diz em São Mateus: Nas vossas orações não useis muitas palavras (Mt 6, 7). Porém daqui não se segue que a oração não deve ser de larga duração. Como explica Santo Agostinho: "Orar largo tempo não é orar dizendo muitas palavras; um longo discurso não é a mesma coisa que um afeto de longa duração; porque do mesmo Senhor está escrito que passou a noite em oração e que orou mais prolixamente para dar-nos exemplo". E depois acrescenta: "Aparte-se da oração o muito falar, mas não falte o rogo abundante, se persevera fervorosa a intenção; pois falar muito é empregar palavras supérfluas para pedir em oração uma coisa necessária; e o rogar muito é interessar àquele a quem se roga com insistente e piedosa excitação do coração. Porém de ordinário este negócio se trata mais com gemidos que com palavras, mais chorando que falando".

Assim, pois, a prolixidade da oração não consiste em que se peçam muitas coisas, senão em que o afeto persevere em desejar uma. Por isso se diz que o senhor Tendo-se retirado novamente, pôs-se a orar, repetindo as mesmas palavras (Mc 14, 39; Lc 22, 43).

-S. Th. IIª IIæ, q. 83, a. 14

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