SEGUNDA-FEIRA DA OITAVA DE PENTECOSTES
Como nos move o Espírito Santo para Deus
I. Coisa muito própria da amizade é, sem dúvida, conversar com o amigo. Agora bem, a conversação do homem com Deus tem lugar por meio da contemplação, como dizia o Apóstolo: Nossa conversação está nos céus (Fl 3, 20). Se, pois, o Espírito Santo nos faz amadores de Deus, segue-se que a Ele também devemos o chegar a ser contempladores de Deus, como lemos na segunda carta aos Coríntios, 3, 18: Todos nós, pois, vendo de cara descoberta como num espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, pela ação do Senhor que é Espírito (2Cor 3, 18).
II. É também próprio da amizade sentir-se feliz na presença do amigo, alegrar-se de seus ditos e feitos, e encontrar nele o consolo em todas as aflições; por isso nas tristezas buscamos principalmente o consolo nos amigos. E como quer que o Espírito Santo nos constitui amigos de Deus, e faz com que Ele habite em nós e nós n'Ele, segue-se que recebemos de Deus, pelo Espírito Santo, gozo e consolo contra todas as adversidades e provas do mundo. Por isso o Espírito Santo é chamado, pelo Senhor, Paráclito, isto é, Consolador.
III. Igualmente é próprio da amizade consentir nos desejos do amigo; mas a vontade de Deus se nos manifesta por meio de seus preceitos; corresponde, portanto, ao amor com que amamos a Deus, cumprir seus mandamentos. E como o Espírito Santo é quem nos faz amar a Deus, por Ele também em certo modo somos movidos a cumprir os preceitos de Deus.
IV. Notemos, no entanto, que os filhos de Deus são movidos pelo Espírito Santo, não como servos, senão como livres. Porque sendo livre o que é causa de si mesmo, executamos livremente o que fazemos por nós mesmos, isto é, o que fazemos voluntariamente; e o que fazemos contra nossa vontade não o fazemos livremente senão servilmente. Mas o Espírito Santo nos inclina a agir de tal modo, que o fazemos livremente, do mesmo modo que nos faz amar a Deus. Assim, pois, os filhos de Deus são movidos livremente pelo Espírito Santo a agir por amor e não servilmente pelo temor. Por isso. diz o Apóstolo: Não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos (Rm 8, 15).
-Contra Gentiles, lib. 4, cap. 22